19/06/2024
Colhido em um encontro com o poeta, na faculdade, em SGA, no dia 04/05/2024, e publicação autorizada pelo próprio:
Um tempo diferente
Paulo Varela, Poeta de Assu/RN
Eu sou de um tempo diferente do seu,
Onde desde cedo o filho aprendeu
De ser o seu Pai o seu Superior.
E pra ele a senha nunca mudava
Porque para o filho apenas restava
Baixar a cabeça e dizer: – Sim, Senhor!
Porque no meu tempo existia respeito
E assim fui criado, desse velho jeito.
Por Papai e Mamãe eu fui educado
E posso dizer: fui bem ensinado!
E acordar cedo era uma obrigação
Correr pra escola, fazer a lição
E depois que terminava, ia trabalhar.
Levava o almoço de Papai no roçado
E Papai era uma máquina; ele nunca tava cansado
A impressão que passava é que ele nunca iria parar
E parece que nunca o tempo passava:
Pouco tempo depois que a gente almoçava,
Sempre se trabalhava três horas ou mais.
Assim era o eito; era nossa lida.
De estudo e trabalho se fez minha vida.
Então, de menino eu fui virando rapaz.
E já rapaz feito, pensando em namoro,
Ainda apanhava, e não tinha choro!
Bastava um olhar de Mamãe pra eu parar
Eu já sabia que ia apanhar.
E todo dia eu via um cinturão,
Estrategicamente no prego, lá na parede,
E ficava bem perto da minha rede;
Foi ele a base da minha instrução.
Bastava eu errar ou fazer coisa feia,
E mais que depressa eu caía na peia
E ouvir de Mamãe: – Traga o cinturão, vamos conversar!
E eu ia calado, tinha que pegar
E na mão de Mamãe eu ia entregá-lo
Ela me dizia: – Eu vou exemplá-lo
Pra você aprender a se comportar.
Onde já se viu numa sala passar
Na presença dos outros, sem pedir licença?
Se respeite, Safado! Tenha consciência!
Respeite os mais velhos! Tenha educação!
E vá bem depressa, guarde o cinturão
E pegue o caderno e vá estudar!
Não pense em outra coisa, nem pense em brincar!
Está de castigo a partir de agora.
E eu só dizia: – Mamãe, sim, Senhora!
E mais que depressa eu corria, então, ia fazer a lição.
E depois eu mostrava a Mamãe o caderno
Ali eu recebia o carinho materno
Pois ela já trazia um presente na mão
E mesmo que fosse um pedaço de pão
Ela me dizia: – Guardei pra você.
E depois de um beijo, um abraço apertado
Ela me dizia: – Desculpe eu chamar você de Safado,
Pois sei que meu filho jamais há de ser!
Mamãe foi embora e Papai foi também
Estão os dois juntos morando no Além
E eu estou só, sem ter mais lição
Mas é um constante, não digo que não
Mas quando eu preciso de um novo conselho
Nos tempos passados ainda me espelho
Na minha base de educação
E no mesmo prego, na mesma parede
Ao balanço da rede eu vejo um cinturão.