Leitura dos Clássicos

Leitura dos Clássicos A batalhas, os dramas. Os deuses, os heróis. A poesia épica de Homero ganha vida, em nossa leitura. Mediação: Thiago Ricardo de Mattos, psicólogo

Leitura dramatizada do poema épico Ilíada, de Homero, obra fundadora da literatura ocidental. Explicação do conjunto da obra, e apresentação dos seus aspectos filosóficos e psicológicos.

25/04/2024

A ação é da dupla

Num dos primeiros cantos da Ilíada, Heitor caça Páris, e quando o encontra lhe dirige palavras duras: ele se ocupa apenas com seu belo aspecto e em dividir a cama com Helena. A guerra que ameaça destruí-los começou por causa dele, e ele deve se apresentar perante os homens em batalha. Afrodite concedera a Páris a mais bela mortal, e continuava trazendo Helena para ele, mesmo nos momentos em que, irada, a bela mulher ameaçava não mais ceder àquele encanto. A união entre Páris e Helena não é equilibrada, nem a dupla formada por ele e Afrodite é assim tão boa. Em outra situação, ainda mais recuada no texto, Agamenon dorme despreocupado após um dia em que ele rompeu com Aquiles, dispensando o braço do melhor dos aqueus. Estava confiante de que o exército lutaria bem e continuaria disposto a lutar por ele. Zeus, que não dormia, maquinava como beneficiar temporariamente os troianos, a fim de obrigar aos aqueus e ao seu rei a honrarem Aquiles. O Pai dos Deuses e dos Homens envia um sonho enganoso a Agamenon, dizendo que a vitória se aproxima e que ele deve imediatamente preparar os homens. Antes dessas palavras, o sonho critica o rei que não se mantém vigilante. Agamenon acorda acreditando no sonho, acreditando ser favorecido por Zeus e acreditando, sobretudo, na própria capacidade de vencer a guerra. Agamenon está em plena Perdição, que impede a visão clara das coisas e encaminha o homem para ações desastrosas. Chegando ao canto 9, Agamenon vê o perigoso avanço das tropas inimigas, e reconhece o terrível erro que cometeu ao afastar Aquiles. Ele manda uma embaixada ao heroi, oferecendo riquíssima recompensa e suplicando por ajuda. Desta vez, é Aquiles que está tomado de Perdição: ele entende o gesto de Agamenon como apenas interessado em beneficiar a si próprio, e não cessa de evocar a discussão que teve com o rei e de realimentar seu coração de cólera. Ele acredita que, quando os troianos chegarem até o seu acampamento, ele enfim se levantará, matará Heitor e terá a glória almejada. Isso é o que ele pensa que irá acontecer, e tem confiança de que Zeus o favorece. Páris, Agamenon no canto 2 e Aquiles no canto 9 são exemplos de homens sozinhos, que nesses momentos não têm relação próxima com outro mortal ou com um deus, e que acreditam poderem agir por conta própria ao tomarem seu entendimento das coisas como claro. No canto 10, do lado aqueu, Agamenon está vigilante e ocupado em encontrar uma forma de impedir o avanço dos troianos. Ele reúne um pequeno comitê, e pede a Nestor uma sugestão do que fazer. O velho sugere o envio de um espião para descobrir como se organizam e pretendem agir os troianos. Diomedes se prontif**a e diz que precisa de um companheiro: ele chama Odisseu, de quem diz ser o mais astuto dos homens, aquele que vê acima dos outros justamente por estar sempre acompanhado de Atena. Quando se está em dupla, um complementa a ação do outro. Ainda que reconheça a superioridade do outro quanto à astúcia, Diomedes pretende ter com Odisseu uma equanimidade. E ainda com a presença da Deusa! Do lado troiano, Heitor, que também não dorme, tem aquela mesma ideia de Nestor. Um homem chamado Dólon se prontif**a: ele é feio e tagarela, e garante ser capaz de cumprir a missão. Dólon apenas exige que Heitor lhe separe as armas e os cavalos de Aquiles, como prêmio. Os espiões põem-se a caminho, na noite repleta de areia, corpos e armas. À distância, os amigos vêem alguém que só pode ser um inimigo. Na certa quer o mesmo que eles, mas está sozinho. Deixam-no passar sem vê-los, e tomar distância. Saem, então, na perseguição. Diomedes interrompe a corrida para atirar uma lança, que se crava diante de Dólon. O homem gela, paralisa-se. Não há um amigo para completar sua ação. No canto anterior a esse, Diomedes dissera que os aqueus precisavam apenas de comida e descanso para agradar ao coração e liberá-lo para o ímpeto da guerra. Agora vemos que, o homem, quando está sozinho, está cheio de si, portanto está vazio. Dólon se ajoelha e fala de forma desmedida, sobre o que pode oferecer por sua vida e sobre como os trácios, dentre os troianos, são os que dormem mais desprotegidos. Ele chega a culpar Heitor de ter incutido nele a ideia de espionar. A cabeça de Dólon é cortada e, enquanto rola, ainda fala! Diomedes e Odisseu chegam e vêem os trácios deitados, com as armas postas ao lado e os cavalos próximos. Um dos aqueus mata doze, mais o rei trácio, enquanto o outro recolhe os bens. Atena aparece e diz que logo virá a Aurora. Os amigos saem despercebidos e voltam para as naus.

Referência

André Malta - A Selvagem Perdição

14/05/2023

Na Odisseia, o aedo Demódoco atende aos pedidos do Rei Alcínoo, e seu canto emociona e alegra a todos. A função do público de um aedo é lançar um tema e, quando saciado de ouvir, pedir uma pausa. A função do aedo é repassar às Musas o tema ("A fúria, deusa, canta, do Pelida Aquiles", Ilíada, canto 1, verso 1) e dar às Musas os parâmetros do que ela deve cantar ("O plano do Cronida se cumpria, desde o momento em que a lide afasta o Atrida, líder o exército, de Aquiles. Mas que nume impôs a desavença aos dois? O filho de Latona e Zeus", Ilíada, canto 1, versos do 5 ao 9). A função das Musas é fazer com que o aedo cante conforme a ordem (kàta kosmón) os entrechos que ele recebe de algum deus ou ouve de alguém. Demódoco canta a partir dessa cooperação com a Musa, e a Musa faz a mediação entre ele e o público, garantindo um canto ordenado e ordenador, criador de acordo entre os homens. Por ironia, o primeiro lugar onde Odisseu pisa ao sair da terra dos Feácios, onde reina Alcínoo, é na terra onde ele mesmo é rei, Ítaca. O palácio de Ítaca está desordenado, desde que Odisseu foi à Tróia: os pretendentes folgam em comer e beber o que há no palácio, cortejam a rainha Penélope e ameaçam o príncipe Telêmaco, além de corromperem os maus serventes, afastarem os bons serventes e até o pai do rei, Laertes. Os pretendentes obrigam Fêmio a cantar, e ele acaba fazendo um canto falso: para agradar a quem o coage, Fêmio diz que Odisseu perdeu o dia do retorno a casa e está perdido. O canto é falso, embora nem o aedo nem os pretendentes saibam disso, ao contrário do narrador e do ouvinte/leitor da Odisseia, pois Odisseu realmente faz o seu retorno. Fêmio recebeu as informações de alguém (um deus?), mas as canta sem a cooperação com as Musas. É um canto desconforme a ordem. Penélope ouve Fêmio e o pede que pare de cantar aquilo que há mais de dez anos a machuca. Telêmaco repreende a mãe, dizendo que o cantor não tem culpa. Mãe e filho não se entendem, ambos estão acuados dentro de casa, o palácio está em desordem. Fêmio sabe algumas coisas, mas não sabe como dizê-las, e a desordem do seu discurso corresponde à do palácio. Agamben diz que uma comunidade é uma musicalidade, uma origem musical para as palavras que os homens dizem. As Musas guardam o momento em que a fala se instala nos homens, e também guardam o dizível, o ser que é dito em cada palavra. Esta origem é a chave para falas harmoniosas e com sentido. Quando os homens perdem a ligação com a origem do que dizem, e da sua própria condição de falantes, eles tagarelam, não sabem mais falar. Os homens passam a não saber nem mesmo que não sabem o que estão falando. O entendimento f**a impossível, a comunidade é esfacelada.

https://www.youtube.com/watch?v=O-TK6oqVyv4

https://youtu.be/J8q-zQZwvIk
02/04/2022

https://youtu.be/J8q-zQZwvIk

Primeiro vídeo sobre "Os trabalhos e os dias", de Hesíodo.Edições utilizadas:Hesíodo. Os trabalhos e os dias (primeira parte) -Tradução, introdução e comentá...

https://youtu.be/e_zx4qA9RS8
27/03/2022

https://youtu.be/e_zx4qA9RS8

Comentário de "Discurso sobre uma canção numinosa", de Jaa Torrano. livro: "Teogonia", de Hesíodo.

https://youtu.be/g2csDlpl-aQ
25/02/2022

https://youtu.be/g2csDlpl-aQ

Comentário de "Discurso sobre uma canção numinosa", de Jaa Torrano. livro: "Teogonia", de Hesíodo.

https://youtu.be/9_rwayXM5xE
17/02/2022

https://youtu.be/9_rwayXM5xE

Comentário de "Discurso sobre uma canção numinosa", de Jaa Torrano. livro: "Teogonia", de Hesíodo.

https://youtu.be/9JvbzmY-iug
12/02/2022

https://youtu.be/9JvbzmY-iug

Comentário de "Discurso sobre uma canção numinosa", de Jaa Torrano. livro: "Teogonia", de Hesíodo.

Em Homero e em Hesíodo, a palavra tinha poder divino, presentif**ava a genese do cosmos e dos deuses, e o homem para si ...
19/11/2021

Em Homero e em Hesíodo, a palavra tinha poder divino, presentif**ava a genese do cosmos e dos deuses, e o homem para si mesmo. Como a perdemos? Vejam esses dois vídeos sobre Hesíodo.

https://youtu.be/VTq5VMlEcQk

https://youtu.be/rl0zecNaQXU

Comentário de "Discurso sobre uma canção numinosa", de Jaa Torrano. livro: "Teogonia", de Hesíodo.

Vamos ler Hesíodo?
14/11/2021

Vamos ler Hesíodo?

Comentário de "Discurso sobre uma canção numinosa", de Jaa Torrano. livro: "Teogonia", de Hesíodo.

O encontro com o ciclope Polifemo.
05/07/2021

O encontro com o ciclope Polifemo.

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