19/06/2024
Espremido entre o Tropicalismo e a Jovem Guarda, coube a Chico Buarque, que chega aos 80 anos, encontrar seu próprio caminho. Frente às pressões do que seria o melhor para a MPB naqueles idos dos anos 1960 e criticado por ainda gravar sambas, ele sintetizou tudo na famosa frase: “nem toda loucura é genial, como nem toda lucidez é velha.”
E foi entre a genialidade e a lucidez que o filho de Sérgio Buarque de Holanda – outro obstáculo a ser superado – construiu sua obra. Curiosamente, coube a voz feminina de Maricenne Costa fazer a música de Chico Buarque se tornar presente pela primeira vez em 1964, ano em que a paulistana lançou “Marcha para um dia de sol”.
Começava ali a associação do artista com as cantoras do Brasil. Não era para menos. O talentoso melodista também mostrava habilidade para escrever sob ótica da mulher, fascinando as intérpretes até os dias de hoje.
Entre os anos 60 e 70 – na leitura de Millôr Fernandes, com quem brigaria depois por conta de Tarso de Castro – Chico Buarque foi a única unanimidade nacional. O tempo, porém, o fez deixar para trás o compositor engajado, mas não menos politizado.
A guinada se iniciou no fim dos anos 1980 e se consolidou nas décadas seguintes. O artista que chegou a decretar o fim da canção – abraçando uma tese de José Ramos Tinhorão -, passou a produzir uma música mais sofisticada, gerando uma menor difusão popular da sua obra e, consequentemente, restringindo seu público.
Mas mesmo com canções mais difíceis de serem apreendidas, há letras submersas, com fragmentos de cartas e vestígios, como ele mesmo descreveu em “Futuros amantes”. Ou como disse ainda em “Flor da Idade”, a gente continua se coçando, se roçando e se viciando com a sua arte. Seja lá como for, o universo ainda sonha com Chico Buarque sem aviso prévio.