29/10/2025
CRÔNICA | Lima Barreto era um homem difícil, cáustico, magoado, ressentido, sofrido, solitário, briguento, provocador, extremamente lúcido, escrevia em português brasileiro quando isso era um acinte para a bolha literária. O criador de Policarpo Quaresma e Isaías Caminha via as coisas do Brasil com a crueza necessária para mostrar o que se tentava esconder, disfarçar, embranquecer. Lima Barreto viveu pouco, só até os 41 anos, mas escreveu muito, polemizou outro tanto, publicou romances e contos (além de crônicas) que estão em qualquer lista dos clássicos da literatura brasileira, deu voz à periferia, tirou a casca do racismo brasileiro e deixou a ferida sangrar. Escreveu sem academicismo, deu voz à sua própria voz e a dos seus. Lima Barreto brigou com meio mundo, até com Machado de Assis, não exatamente com o escritor, mas com o fundador da Academia Brasileira de Letras. Passou por hospícios pra tentar se livrar do alcoolismo, não se casou, não deve ter tido filhos, se namorou foi muito pouco.
O filho da professora Amália com o tipógrafo e depois almoxarife João tinha uma biblioteca em casa, um cômodo que servia de quarto, escritório, refúgio, sossego. E aí vem a coisa mais terna e doce do amargo escritor que dizia ter a alma de um bandido tímido: ele deu à sua biblioteca o nome de Limana, substantivo próprio que é quase uma música de um só acorde, um poema de uma única palavra, o nome de uma fruta mais o sufixo “na” que tem o sentido do pertencimento. Romana, de Roma, Americana, da América, Machadiana, de livros de e sobre Machado de Assis, Limana, de Lima Barreto. Lima é nome de uma fruta cítrica, ácida e levemente adocicada. Limana é nome feminino, terno, poético.
Numa casa do subúrbio de Todos os Santos, zona norte do Rio de Janeiro, moravam o pai de Lima, o também sofrido João Henriques de Lima Barreto, e os quatro filhos, Afonso, Evangelina, Carlindo e Eliézer.
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