CAUTELA
Rever a história é abrir baús que, vistos fora do ambiente político e social da época, podem conter momentos estranhos. Na eleição indireta do general Garrastazu Médici, sempre lembrado como o mais duro do regime militar, o partido se dividiu em quatro. Alguns apostavam nos bons propósitos expressos por Médici antes da eleição. No MDB tínhamos os “duros”, que simplesmente não queriam comp
arecer ao Colégio Eleitoral em protesto aberto; os “moles”, que não queriam apenas comparecer, mas votar em Médici, como um “voto de confiança”; e dois grupos apelidados de “pastosos”. Os integrantes do primeiro grupo queriam comparecer e votar em candidato próprio. O segundo grupo pregava o comparecimento sem votar em ninguém. Foi o majoritário. Entre os que procuravam evitar o confronto mais duro que, diziam na época, resultaria em mais atos institucionais e mais repressão naquele cinzento final da década de 60, duas figuras marcariam de forma definitiva os futuros passos do MDB: Ulysses Guimarães e Franco Montoro. Ulysses já pregava o restabelecimento das prerrogativas do Congresso, as eleições diretas, inclusive para presidente, mas pedia atenção ao “aceno de liberalização do Presidente Médici e cooperação para que seu desejo de redemocratização se realize”. Montoro dizia: “A oposição que estamos fazendo é a mesma de sempre e ela se pauta pelo realismo político. A experiência demonstra que, toda vez que a oposição quis queimar etapas, tanto antes como depois de 1964, ela nada conseguiu e as conseqüências sempre representaram um retrocesso político”. Entre os duros destacava-se o deputado Caruso da Rocha que considerava impossível o partido renunciar ou mesmo adiar bandeiras de seu programa como a anistia, o habeas corpus , a justiça civil para os civis e as eleições diretas. Bandeiras que permearam todo o caminho do partido. OPOSIÇÃO NECESSÁRIA
O primeiro presidente do MDB foi um general, o senador pelo Acre, Oscar Passos. Como a Arena era o braço auxiliar de um regime que prometia longos anos no poder, alterando as regras do jogo a nível nacional e local, não foi fácil para o MDB conseguir a adesão, mesmo que momentânea, de 120 deputados e 20 senadores necessários para registrar a legenda. Era comentário de bastidores na época que o próprio presidente Castelo Branco havia convencido alguns senadores a se integrarem ao MDB para possibilitar o seu registro. O novo sistema precisava de um partido de oposição para não caracterizar a ditadura de partido único. As representações do MDB nas assembleias legislativas dos estados sofriam pressões do poder central disseminado nas administrações estaduais. Com uma economia centralizada no Estado e regras eleitorais mutantes, a Arena dominava a cena política. A partir de dezembro de 1968, mês e ano do AI 5, que teve como pretexto o discurso do medebista Márcio Moreira Alves, o partido passa a ser mais combativo. Mas a agitação estudantil e a luta armada, empurram boa parte do eleitorado oposicionista para o voto nulo, como forma de protesto contra o regime, contra o próprio AI-5, que fez vítimas no MDB. Com as eleições transformadas em indiretas após 1966, o MDB só conseguiria eleger seu primeiro governador em 1970: Chagas Freitas, no Rio de Janeiro. Chagas acabou no MDB mais por falta de espaço na Arena, tomada pelos lacerdistas (que sonhavam fazer do seu líder ministro da Educação), do que por vocação oposicionista. A ideia da convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte, que só vingaria no distante ano de 1985, nasceu em 1971 num seminário do partido em Recife. Brotou ali também a ideia de uma anticandidatura para dar projeção ao partido. Ela vingou, mas desuniu e deixou descontentes.
1974: O GRANDE SALTO
A década de 70 marcaria o grande salto do MDB. Além da linha mais combativa que abria espaço para lideranças populares, outros fatores contribuíram de forma significativa para o crescimento do MDB: a crise do petróleo provocou o fim do milagre econômico e o esfacelamento da luta armada. O MDB assumiu definitivamente o papel de escoadouro das insatisfações em todos os níveis. Torna-se uma frente oposicionista. O timoneiro desta arrancada foi Ulysses Guimarães. O Grupo Autêntico do MDB, que já vinha amadurecendo a ideia no início de 70, resolveu lançar Ulysses como anticandidato na passagem do governo Garrastazu Médici para Ernesto Geisel. Em companhia de Barbosa Lima Sobrinho, o vice, Ulysses percorre as capitais do País com a pregação das idéias oposicionistas. Ganha espaço na mídia interna e alcança grande repercussão no exterior, o que mais irrita os militares. A semente estava lançada, mas Ulysses foi além do combinando com os autênticos. A ideia era que renunciasse no dia da eleição. Ele resolveu ir até o fim, o que deu legitimidade ao Colégio Eleitoral e à eleição do general Ernesto Geisel. Apesar do clima de chumbo da época – que obrigou Ulysses a enfrentar literalmente os cachorros da polícia baiana do governador Roberto Santos em visita a Salvador – os autênticos tinham lá o seu humor. Como o adversário era um militar, ou os militares, resolveram montar também a sua hierarquia de caserna. No grupo cada um tinha uma patente: Fernando Lyra era o “cabo Lyra”, Alceu Collares o “sargento”, Alencar Furtado o “coronel”, Marcos Freire o “almirante”, Chico Pinto o “marechal”. Nem todos gostavam dessa brincadeira, mas era o “nosso exército”, lembra Chico Pinto. SUSTO E REAÇÃO MILITAR
Ironicamente, o anti-candidato Ulysses Guimarães em campanha só não foi ao Rio de Janeiro, barrado por Chagas Freitas, governador eleito pelo próprio MDB. Nenhuma surpresa. Chagas já havia impedido o acesso de candidatos do grupo “autêntico” do MDB no horário de TV do partido. Entre os autênticos que orbitavam em torno de Ulysses contra os “moderados” de Tancredo Neves, destacavam-se ainda Mário Covas, Franco Montoro, Lysâneas Maciel. No Senado, que se mostrara um terreno estéril para o partido na sua fundação, também deu seu salto significativo neste ano de 1974. Passou de quatro senadores em 1966, três em 1970 para 16 em 1974. E mais: elegeu neste ano 44 por cento dos deputados federais e a maioria de deputados estaduais em seis assembleias legislativas, o que lhe garantia a eleição indireta dos governadores destes estados. O governo militar tomou um susto. As regras para existência de uma oposição sem opção de poder estavam sendo derrubadas. E novo susto nas capitais com as eleições municipais de 1976, com novo avanço emedebista. O eleitorado era cada vez mais urbano e, na medida do possível para a época, melhor informado e mais independente. A reação dos militares foi o pacote de abril de 1977 baixado pelo presidente Ernesto Geisel, que destinou um terço das cadeiras do Senado para os “biônicos”, indicados pelo governo central e eleitos pelas assembleias legislativas, manteve as eleições indiretas para os governos estaduais e ofereceu ao País a Lei Falcão. No horário da propaganda eleitoral o País passou a assistir o desfilar de retratos dos candidatos com apenas um fundo musical. Não se sabia a que vinham ou propunham. Com tanto esforço “revolucionário”, a Arena, em 1978, manteve a maioria na Câmara (55%) e no Senado (62%). O MDB perde poucos deputados. Mas o governo perde um aliando que história ao trocar a Arena pelo MDB na reforma partidária: Teotônio Vilela, o “menestrel das Alagoas”. Não surpreendeu ninguém. Ele já votava com a oposição em todas as matérias no Senado. Mas seria com ele no MDB, visitando os presídios, percorrendo o País, que a luta a favor da anistia e dos presos políticos ganharia um novo patamar nas pressões populares pela abertura.