27/02/2022
A Reserva Particular do Patrimônio Natural é uma Unidade de Conservação (UC) privada, gravada com perpetuidade, com o objetivo de conservar a diversidade biológica (SNUC, 2000), tendo como usos permitidos pesquisa científica, ecoturismo e educação ambiental, caso seja da vontade do proprietário. As reservas reconhecidas como RPPNs são fundamentais para a conservação em larga escala ou em escala regional e para implementação de corredores de biodiversidade. Contribuem para o aumento de áreas protegidas aumentando a conectividade biológica na paisagem, sobretudo em regiões bastante fragmentadas, como a Mata Atlântica. Uma destas RPPNs no estado do Rio de Janeiro tem destaque, como a RPPN Campo Escoteiro Geraldo Hugo Nunes (CEGHN), UC com 20,3 hectares, de âmbito estadual e de propriedade da Associação Escoteiros do Brasil do Rio de Janeiro. Localizada a mil metros (1 km) de distância da Área de Proteção Ambiental (APA) da Região Serrana de Petrópolis, a RPPN abriga uma das formações florestais que mais sofreram redução de sua área, devido ao desmatamento e a formação que apresenta, atualmente a menor proporção de remanescentes protegidos em UCs no Estado do Rio de Janeiro (Costa et al., 2009). Devido a isto, as formações florestais de Terras Baixas apresentam grande número de espécies ameaçadas em todos os grupos, muitas das quais endêmicas desta formação. Os levantamentos florísticos realizados até agora, revelaram a ocorrência de 284 espécies vegetais, com importantes ocorrências como a espécie considerada rara Miconia elaeodendron (Mourão, M.D.S., 2015) incluída no Catálogo de Plantas Raras do Brasil (Giulietti et al., 2009). A espécie tem apenas dois pontos de ocorrência registrados no JABOT (2007), um deles sendo a RPPN CEGHN, pois a literatura se refere como sendo uma espécie endêmica do Brasil, encontrada nas regiões localizadas no sopé da Serra dos Órgãos, entretanto ainda não foi avaliada quanto ao status de conservação e grau de ameaça (Lista de Espécies da Flora do Brasil, 2020).
A RPPN foi o local onde foi coletada a pele utilizada para descrever a espécie Myrmotherula fluminensis e, até hoje, o único ponto de ocorrência conhecido da enigmática espécie. São 173 espécies de aves, incluindo quatro da Lista de Espécies Ameaçadas de Extinção do Brasil (MMA, 2008) e da Red List da IUCN (2017) (Amadonastur lacernulatus, Touit surdus, Myrmotherula fluminensis e Sporophila falcirostris) e mais duas espécies incluídas apenas na lista regional (Alves et al., 2000) (Tangara brasiliensis e Patagioenas speciosa). Apesar disso a avifauna da RPPN ainda é pouco conhecida e, provavelmente, existem muitas espécies a serem acrescentadas à esta lista.
A promoção do ecoturismo visa aproximar a sociedade das áreas naturais incentivando a conservação do patrimônio natural e a formação de uma consciência que preze pelo cuidado com a natureza, com consequente manifestação do sentimento de pertencimento, o qual é capaz de transformar pessoas nos principais guardiões desses recursos naturais. Para Dias (2011), dentre as modalidades de ecoturismo, a de observação de aves ou Birdwatching é a que tem demonstrado ser mais sustentável e, como afirmam Farias & Castilho (2007), geralmente quem observa aves se desloca nos ambientes naturais em pequenos grupos, caminhando de forma discreta e silenciosa, anotando e fotografando as espécies vistas, gerando o menor impacto possível ao local.
No entorno da RPPN CEGHN há comunidades que podem vir a gerar oportunidades de desenvolvimento local, possibilitando a complementação de renda e geração de emprego, aumentando a qualidade de vida sem prejuízo à conservação ambiental. Acredita-se que a partir do envolvimento destas comunidades locais em atividades que contribuam para a conservação como o turismo de observação e monitoramento de aves aumentaria, possivelmente, a proteção das espécies no habitat natural. Desse modo, fortalecer o sentimento de pertencimento das comunidades ao interagirem de forma positiva com a UC, ressalta a missão da RPPN CEGHN, no sentido de compartilhar a responsabilidade com todos os envolvidos. Este entrosamento contribuirá com a proteção e valorização da sociobiodiversidade da Mata Atlântica.