10/07/2020
NOTA DO CENTRO ACADÊMICO DE CIÊNCIAS SOCIAIS CONTRA O ENSINO REMOTO
O Centro Acadêmico de Ciências Sociais (CACS), por meio da Assembleia Estudantil realizada no dia 08 de julho de 2020, após a retomada do calendário da graduação e, por conseguinte, a aplicação do ensino remoto, vem a público manifestar seu repúdio.
No decorrer dos últimos três meses, iniciaram-se debates quanto à implementação do ensino remoto na universidade. Em um primeiro momento, estes debates, eram tratados como um planejamento a longo prazo, a fim de garantir a qualidade de ensino na instituição e o acesso a todos os discentes. A Universidade Estadual de Londrina, portanto, por meio da reunião virtual do CEPE (Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão), no dia 24 de junho de 2020, deliberou a retomada do calendário letivo de graduação de maneira remota a partir de 29 de junho de 2020.
Esta decisão tomada pela universidade trouxe à tona preocupantes aspectos que conflitam o perfil psicológico e sócio-econômico dos discentes de ciências sociais com a implementação do ensino remoto no curso.
Muitos estudantes têm enfrentado dificuldades no âmbito financeiro, familiar e de saúde mental devido a atual conjuntura que vivemos. O SEBEC (Serviço de Bem Estar à Comunidade) e a Clínica Psicológica da UEL não possuem recursos estruturais suficientes para suprir tal demanda que se apresenta nesse momento. É fato que os estudantes trabalhadores, nestes tempos de pandemia, diariamente tem colocado suas vidas em risco, já que são privados do direito de fazer uma quarentena adequada, uma vez que possuem como necessidade primária a garantia de recursos básicos para sua sobrevivência (como pagamento de contas, alimentação e suprimento de demais necessidades básicas) . Entre os que não trabalham, a possibilidade de contágio pelo vírus e o risco de se perder entes queridos, assolam suas famílias. Como é possível garantir a qualidade de ensino e aprendizagem nessas condições?
De um lado, temos uma maioria de docentes que não possuem preparação técnica para trabalhar com o ensino realizado à distância, carentes de entendimento tecnológico aprofundado, didáticas e metodologias que são pertinentes a essa modalidade. De outro, temos alunos que sequer possuem estrutura tecnológica ou ambiente familiar adequados para participar das aulas.
A proposta de retomada não considera, também, a situação dos estudantes indígenas da UEL, os quais por meio da Articulação dos Estudantes Indígenas (ARTEIN-UEL), redigiram carta ao CEPE, destacando a falta de acesso à internet dos estudantes aldeados, a carência de equipamentos como celulares e laptops, problemas financeiros e particularidades geográficas das aldeias (esta carta pode ser encontrada na íntegra, na página da ARTEIN-UEL e também na página do Diretório Central dos Estudantes).
Muitos estudantes, também, são provenientes de outros estados e cidades e residindo em londrina com a finalidade de cursar a graduação, foram obrigados a retornar por conta da pandemia. Como a universidade irá prover os recursos materiais necessários para essas pessoas? Haverá recursos suficientes para suprir a demanda dos estudantes que residem dentro e fora de Londrina?
A PROGRAD (Pró-Reitoria de Graduação) realizou um mapeamento em abril para analisar a situação socioeconômica dos estudantes e suas condições para a retomada remota das atividades, bem como, consultar a opinião e levantar o posicionamento dos docentes com relação a tal prática. Apenas 65% dos discentes de graduação e 69% dos docentes responderam ao formulário. Apenas 57% dos estudantes de graduação em Ciências Sociais responderam. Não atingir 100% dos estudantes significa, entre muitas coisas, a falta de acesso das pessoas ao questionário, tendo em vista que este foi feito online. A partir disso, foi encaminhado um pedido de prorrogação da suspensão do calendário, uma vez que, conforme apontou o relatório, a prática do ensino à distância era inviável.
Em abril de 2020, o Centro Acadêmico de Ciências Sociais também realizou um mapeamento para tentar averiguar a situação psicosocioeconômica dos discentes e iniciar o debate sobre a implementação do ensino remoto. Este formulário obteve 122 respostas, em contraste a 390 alunos matriculados no curso atualmente. Destacamos, então, alguns dados recolhidos:
1. 42 estudantes se encontravam em situação financeira em risco;
2. 15 estudantes não tinham acesso à um computador e outros 35 conheciam alguém que não tem acesso;
3. Mais de 60 estudantes conhecem alguém sem acesso à internet no local onde está isolado;
4. 100 estudantes apontaram a dificuldade de assegurar a qualidade das atividades desenvolvidas por meios remotos;
Em junho/julho, outro mapeamento foi realizado pelo CACS. Os dados que serão tratados a seguir foram resultados do segundo levantamento, com 211 respostas, em contraste a 390 discentes matriculados.
1. 96 discentes não estão situados em Londrina, desta forma, questionamos o assistencialismo que será ofertado aos discentes: como a entrega de aparelhos chegará a estes estudantes?
2. 52 discentes estão na posição de cuidador de algum familiar, como crianças ou idosos;
3. 136 discentes trabalham ou estão em busca de emprego, desta forma questionamos a flexibilidade referente aos discentes que não puderem participar das aulas no período pré matriculado.
4. 152 discentes estão passando por dificuldades relacionadas à saúde mental;
5. 95 discentes estão passando por dificuldades no âmbito financeiro;
6. 64 discentes estão passando por dificuldades no âmbito familiar;
7. 195 discentes afirmaram que não estão com o psicológico apto para retomar as atividades acadêmicas de forma remota, desta forma, podemos analisar que condições estruturais/tecnológicas não são unicamente impedimentos para a realização destas atividades;
8. 86 discentes necessitam de aparelhos para realização das atividades remotas;
9. 47 discentes não possuem nenhuma estrutura e/ou ambiente para participar das atividades remotas, além de 117 discentes que têm parcialmente estruturas e/ou ambiente;
10. 169 discentes conhecem algum colega que tem acesso/meios tecnológicos precários para a realização das atividades;
11. 190 discentes se posicionaram contrários à implementação do ensino remoto na universidade durante a pandemia de COVID-19;
12. 53 discentes já tem a certeza que irão trancar a matrícula ou abandonar o curso caso haja a implementação ensino remoto, outros 99 discentes apresentaram que não tem posicionamento quanto a isto.
Além disso, repudiamos a carta advinda da SETI/PR (Superintendência Geral de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior) que ameaça cortar as licenças dos servidores públicos durante a pandemia caso o ensino remoto não seja implementado, colocando em risco a própria segurança dos funcionários e de seus dependentes.
A fim de repudiar o ensino a distância com base nas pautas aqui explicitadas e defendidas, além dos questionários, foram realizados pelo CACS um abaixo-assinado contra a implementação do ensino remoto, que contou com a assinatura de 321 estudantes e uma assembleia discente extraordinária.
A assembleia estudantil contou com 97 estudantes, trazendo informes deste processo de implementação do ensino à distância e pautando um indicativo de boicote ao ensino remoto.
Após as discussões se deliberou de forma unânime o boicote ao ensino remoto para o curso de Ciências Sociais, isso porque entendemos que retomada do calendário de graduação configura um enorme descaso da universidade para com os seus discentes e docentes, de tal modo que, mesmo após serem elencadas inúmeras problemáticas, fora aprovado o ensino remoto, indo de contrapartida ao próprio Estatuto da universidade, vide artigos 2°, 3° e 29°:
Art. 2° A Universidade tem por princípios:
III. a igualdade de condições para o acesso e permanência discente na Instituição;
VII. a garantia de qualidade acadêmica;
XI. a gratuidade do ensino de graduação e pós-graduação stricto sensu acadêmico.
Art. 3° São finalidades da Universidade:
I. gerar, disseminar e socializar o conhecimento em padrões elevados de qualidade e eqüidade;
VI. conservar e difundir os valores éticos e de liberdade, igualdade e democracia;
IX. propiciar condições para a transformação da realidade, visando justiça e eqüidade social;
Art. 29°:
Os cursos de graduação terão por finalidade a concessão de graus acadêmicos e deverão possibilitar a formação de profissionais de qualidade e com consciência crítica, atendidos os princípios e as finalidades da Universidade.
Desta forma, podemos analisar que, para o correto funcionamento da universidade e cumprimento do Estatuto, é necessário que esta consiga contemplar os artigos e respectivos pontos, assegurando-os a todos e todas os/as estudantes. Assim, questionamos a negligência na garantia de qualidade de ensino, na igualdade das condições para acesso e permanência na instituição, na equidade social, nos valores democráticos e na qualidade de formação profissional.
Devemos também entender que a implementação do ensino remoto, por mais que aplicado apenas em meios excepcionais, pode gerar grandes impactos a curto e a longo prazo, uma vez que reforça discursos elitistas e de não democratização da educação e abrem margem para um futuro desmonte do setor, através de uma maior precarização do ensino por meio de cortes de verbas públicas.
O ensino remoto emergencial pode justificar, a longo prazo, uma implementação integral do ensino remoto em cursos teóricos e/ou a privatização da educação pública, além dos efeitos a curto prazo, como a evasão estudantil dos cursos. Assim, objetivando a garantia da não exclusão social, a não mercantilização e não precarização da educação, esta nota reafirma que a formação dos discentes deve ocorrer por meio de cursos presenciais. A atitude da universidade ao aprovar o ensino remoto foi irresponsável e atropelada, incentivando ainda mais a elitização desse espaço!
Centro Acadêmico de Ciências Sociais UEL – Gestão Ação direta