03/12/2021
Quero uma COP para chamar de minha
Desde 1992, o Organização das Nações Unidas (ONU) celebra o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência no dia 03 de dezembro.
A partir de 1998, ano após ano, a ONU escolhe um tema específico que diga respeito às pessoas com deficiência e promove um debate sobre o assunto. Em 2008, por exemplo, o tema foi a "Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência: dignidade e justiça para todos nós".
No ano da graça de 2021, o tema é "Participação e liderança das pessoas com deficiência: Agenda de Desenvolvimento 2030". A fim de celebrar o evento, ouçamos o que diz o Secretário Geral da ONU, António Guterres:
"Na medida em que o mundo se recupera da pandemia, devemos garantir que as aspirações e os direitos das pessoas com deficiência sejam incluídos e levados em consideração em um mundo pós-COVID-19 que seja inclusivo, acessível e sustentável."
Lendo o argumento do Secretário Geral da ONU, me ocorre a dúvida: nós, pessoas com deficiência, podemos esperar o fim dessa pandemia para vivermos em um mundo inclusivo, acessível e sustentável?
Respondendo a minha própria pergunta, digo um não rotundo, e exponho duas singelas razões que fundamentam o meu não.
Um, não sabemos quando ela, a pandemia por Covid-19, vai passar. Recentemente pintou nos radares científicos mais uma variante de preocupação, a ômicron. Já passamos pela alfa, beta, gama, delta e sabe-se quais outras virão. Logo, esperar por um mundo pós-COVID-19 é um sonho ainda distante, ao que parece.
Dois, outras pandemias virão. Segundo Cristiano Valim Bizarro, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Biologia Molecular e Celular da PUC-RS “Precisamos ter em mente que o risco para novas ameaças pandêmicas no futuro é real e merece atenção. Sem dúvida, a questão não é ‘se’, mas ‘quando’ teremos a próxima pandemia”.
Logo, a "desculpa" pandêmica não tem o condão de afastar a pretensão daqueles que, como nós, pessoas com deficiência, lutam por inclusão, acessibilidade e um mundo sustentável. Essa demanda não é para hoje, ela é para ontem!
Outro aspecto para ser pensado nesse dia 3 de dezembro: apenas para efeito de analogia, se a Convenção do Clima (1992) gera, ano a ano, as COP's (Conferências das partes), a Convenção Internacional dos direitos das pessoas com deficiência (2006) também produz essa obrigação entre os Estados Parte.
O Artigo 40 da referida Convenção estabelece que "Os Estados Partes reunir-se-ão regularmente em Conferência dos Estados Partes a fim de considerar matérias relativas à implementação da presente Convenção".
Ora pois, eu, como cadeirante, também quero ao menos uma parcela da cobertura midiática destinada à COP26. Estou comparando a relevância do temas? Não. Estou dizendo que as pessoas com deficiência merecem mais atenção do que as mudanças climáticas? Não! Estou afirmando que o mundo precisa mais de acessibilidade do que da redução da utilização dos combustíveis fósseis? Óbvio que não.
As pessoas com deficiência também querem um planeta sustentável. A nossa sobrevivência depende dela, a Mãe Terra. Agora, quando as conferências envolvendo os Estados Partes da Convenção das pessoas com deficiência não recebem nenhuma cobertura da mídia, um bilhão de pessoas são ignoradas em todo o mundo, sendo 80% delas em países em desenvolvimento.
O dia 03 de dezembro nos oportuniza gritar, ou melhor, seguir gritando contra a exclusão, o silenciamento, a invisibilidade, a falta de acessibilidade, a discriminação e o preconceito a que nos condenam e nos dirigem os "capazes".
* texto do nosso associado Pablo Andre Flores
silueta de cadeirante rodando em direção ao horizonte num plano íngreme, num final de tarde. Na parte inferior da imagem, sobre fundo preto, está escrito em letras amarela 3/12 DIA INTERNACIONAL DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA. No canto superior esquerdo há o logotipo da Associação RS Paradesporto que é um cadeirante equilibrando uma bola (simbolizando o globo terrestre) com a mão esquerda (fundo preto e imagens amarelas)