29/04/2026
Vale a pena Ler Eu Amo Ivinhema MS
A história de como surgiu Ivinhema de uma maneira simples e emocionante…
Ivinhema: A Cidade que Nasceu do Machado e de um Sonho
No dia 1º de setembro de 1961, alguém colocou fogo na mata. Não foi destruição. Foi fundação. Ali, no meio de uma floresta que ninguém parecia querer, o primeiro clarão de uma cidade que ainda não existia. Cinzas no ar, cheiro de terra queimada e, logo depois, o silêncio — aquele silêncio que só o mato grosso sabe impor. Deste momento em diante, Ivinhema começou a existir. Não com alvará, não com discurso. Com machado.
Antes da cidade, o silêncio
Para entender Ivinhema, é preciso voltar ao século XIX — quando a região do sul de Mato Grosso era, para a maioria dos brasileiros, um lugar que simplesmente não existia nos mapas mentais do país.
Não havia estradas. Não havia cidades. Havia mata. Mata fechada, densa, cerrada, que se estendia por milhares de hectares sem presença urbana estruturada segundo os padrões oficiais.
Mas a mata não estava vazia.
Havia ali os resquícios de uma presença antiga: cruzes de ferro fundido fincadas em clareiras, vestígios de acampamentos escondidos sob camadas de folhas secas e cinzas velhas. Eram os sinais dos primeiros colonizadores da região — os "ervateiros", homens que se embrenhavam na floresta para extrair erva-mate, a planta que durante décadas moveu a economia do sul de Mato Grosso.
Esses ervateiros operavam sob concessão do Governo Federal e da poderosa Companhia Mate Laranjeira, que detinha o virtual monopólio da produção ervateira no estado desde o final do século XIX. Homens fronteiriços, indígenas, viviam meses a fio na mata, cortando folhas, secando, processando. Quando partiam, deixavam para trás apenas cruzes e o fantasma de fogueiras apagadas.
Foi nessas terras — 7.788 alqueires de mata bruta — que um homem decidiu construir uma cidade.
O paulista que acreditou no mato
Reynaldo Massi não era sul-mato-grossense. Era paulista. Tinha o olhar daqueles que olham para o interior do Brasil e não veem vazio — veem possibilidade. Na década de 1950, quando o sul de Mato Grosso ainda era um território pouco conhecido, pouco mapeado e pouco valorizado pelo restante do país, Massi enxergou algo que poucos viam: pujança.
Ele adquiriu grandes áreas de matas no coração do que hoje é o município de Ivinhema. Não para especular. Não para esperar. Para construir.
Em 1957, Massi reuniu sócios e fundou a Sociedade de Melhoramentos e Colonização — SOMECO S/A. A empresa tinha uma missão clara: transformar aquele pedaço de floresta em uma cidade de verdade, com planejamento, com infraestrutura, com futuro.
E quando se fala em planejamento, não se fala de amadorismo. A SOMECO contratou nada menos que Francisco Prestes Maia, um dos mais renomados urbanistas do Brasil — o mesmo homem que projetou o Plano de Avenidas de São Paulo. Durante dois anos, a empresa forneceu dados, levantamentos e estudos para que Prestes Maia desenhasse a sede do futuro município. O projeto previa uma cidade para 10 mil habitantes — uma ambição considerável para quem olhava aquela mata e só via árvores.
1º de setembro de 1961: o dia do fogo
Chegou o momento de transformar o projeto em realidade. E a realidade, naquela época, naquele lugar, começava com uma coisa simples e violenta: derrubar mata.
Não havia máquinas pesadas. Não havia retroescavadeiras, nem tratores de esteira, nem motosserras industriais. O que havia eram machados, foices e enxadões. E homens dispostos a usá-los.
A golpes de braço, foi aberta uma clareira em plena floresta. O objetivo imediato era modesto e urgente: criar um campo de pouso para pequenos aviões. Porque naquela época, avião não era luxo — era o único meio de transporte para chegar à região. Não havia estradas. Não havia pontes. O céu era a estrada.
No dia 1º de setembro de 1961, a clareira estava pronta. E então, com uma cerimônia que mais parecia um ato de fé, colocou-se fogo na área recém-derrubada. As árvores caídas, os tocos, a vegetação rasteira — tudo foi consumido pelas chamas. Dali para cima, o terreno ficou limpo. Dali para baixo, a terra ficou exposta. E sobre aquela terra exposta, Reynaldo Massi e seus sócios começaram a demarcar os lotes da futura cidade.
Ivinhema nasceu queimando.
O nome que veio do rio
O nome Ivinhema vem do rio que corta a região — o Rio Ivinhema, um dos mais importantes afluentes da margem direita do Rio Paraná. A palavra tem origem indígena, embora haja debate sobre seu significado exato. Alguns linguistas apontam para a língua guarani, outros para o tupi. O que se sabe é que o rio estava ali antes de qualquer homem — e que o nome carrega a marca dos povos que primeiro conheceram aquelas águas.
O rio Ivinhema não é apenas um detalhe geográfico. É a espinha dorsal de toda a região. Ao longo das décadas, foi o rio que permitiu a navegação, o escoamento de produtos, a conexão com o mundo exterior. Antes de haver estrada, havia rio. Antes de haver caminhão, havia canoa.
Os ervateiros que estavam ali antes
Quando os operários da SOMECO começaram a derrubar a mata, encontraram mais do que árvores. Encontraram memória.
As cruzes de ferro fundido, espalhadas pela floresta, contavam a história de homens que haviam passado por ali décadas antes. Os vestígios de acampamentos — pedras dispostas em círculo, restos de fogueiras, objetos abandonados — revelavam uma presença humana que não aparecia em nenhum documento oficial.
Eram os ervateiros fronteiriços que, desde o final do século XIX, se dedicavam à exploração de erva-mate na região. Essa atividade era tão central na economia local que, em 1918, a inauguração da Companhia Mate Laranjeira em Ponta Porã marcou oficialmente o ciclo do cultivo da erva-mate no sul de Mato Grosso.
Os ervateiros viviam em condições precárias, isolados no meio da mata por meses. Quando a extração se esgotava em uma área, mudavam-se para outra, deixando para trás apenas os sinais de sua passagem. Quando a SOMECO chegou, esses sinais tinham décadas — mas ainda estavam ali, como cicatrizes na terra.
A colonização: de campo de pouso a cidade
O campo de pouso foi o primeiro marco. Depois vieram os primeiros lotes demarcados. Depois, as primeiras casas. Depois, as primeiras famílias.
A colonização de Ivinhema seguiu um padrão comum no sul de Mato Grosso naquela época: venda de terras a preços acessíveis, atraindo migrantes de outros estados — especialmente do Paraná, de São Paulo e do Rio Grande do Sul — que buscavam oportunidades no interior do Brasil. Eram famílias inteiras que chegavam com o pouco que tinham, dispostas a trocar o que conheciam pelo que ainda não existia.
O processo não foi fácil. A mata era hostil. O isolamento era real. As primeiras chuvas transformavam os caminhos em lamaçais. Os mosquitos não davam trégua. As doenças tropicais eram uma ameaça constante. Mas os colonos resistiram. Derrubaram mais mata. Plantaram. Colheram. Construíram.
A cada ano, a clareira ficava maior. A cada ano, mais gente chegava. A cada ano, Ivinhema se parecia menos com uma aposta e mais com uma cidade.
De colônia a município
O caminho de povoado a município não foi automático — foi conquistado. Ivinhema cresceu, se organizou, criou instituições, formou lideranças. A comunidade lutou por autonomia administrativa, por escolas, por saúde, por representação política.
O município de Ivinhema foi desmembrado e se consolidou como parte do novo mapa político do sul de Mato Grosso — um mapa que, décadas depois, se transformaria completamente com a criação de Mato Grosso do Sul em 1977. A cidade que nasceu do fogo passou a integrar um estado que também estava nascendo.
A ferrovia e a integração com o mundo
Enquanto Ivinhema se erguia no meio da mata, a região como um todo vivia uma transformação de outro tipo: a expansão da malha ferroviária. A antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que ligava Bauru (SP) a Corumbá (MS), era a espinha dorsal do transporte no estado.
Até meados da década de 1920, existiam duas estações com o nome Jupiá — uma em cada margem do Rio Paraná. A inauguração da Ponte Francisco Sá, em 1926, eliminou a necessidade de baldeação entre as margens e conectou diretamente as malhas ferroviárias de Mato Grosso e São Paulo. Foi um feito de engenharia que mudou a logística de toda a região.
Para cidades como Ivinhema, a ferrovia significava acesso. Significava que produtos podiam sair. Que gente podia chegar. Que o isolamento — aquele isolamento que definia a vida no sul de Mato Grosso desde sempre — estava, pouco a pouco, sendo vencido.
O que restou da mata
Há algo de paradoxal na história de Ivinhema. A cidade nasceu destruindo a mata — derrubando árvores, queimando vegetação, abrindo clareiras à força de machado. Era assim que se fazia naquela época. Não havia debate ambiental, não havia licenciamento, não havia preocupação com sustentabilidade. Havia terra, havia gente e havia fome — fome de terra, de futuro, de pertencimento.
Hoje, olhar para trás é reconhecer que o preço foi alto. As matas que cobriam 7.788 alqueires foram sendo reduzidas, ano após ano, à medida que a cidade crescia. Espécies desapareceram. Nascentes secaram. O cerrado que cercava Ivinhema encolheu.
Mas é também olhando para trás que se entende a dimensão do que aqueles homens e mulheres fizeram. Eles não tinham Google Maps. Não tinham previsão do tempo. Não tinham nem estrada. Tinham machado, foice, enxadão e uma convicção: de que ali, naquele pedaço de mato grosso, era possível construir algo.
E construíram.
Ivinhema hoje
Ivinhema é hoje um município do estado de Mato Grosso do Sul, localizado na microrregião de Nova Andradina, no leste sul-mato-grossense. A cidade que nasceu de um campo de pouso cercado de floresta se transformou em um polo agrícola e pecuário, com uma população que orgulhosa carrega a marca do pioneirismo.
Os mais velhos ainda contam histórias daquele primeiro fogo. Dos primeiros aviões pousando na clareira. Do cheiro de mato queimado. Do silêncio que só a mata sabe fazer.
E quando alguém pergunta de onde veio a cidade, a resposta é sempre a mesma: veio do fogo.
Se você for a Ivinhema...
Procure os mais velhos. Sente-se com eles. Ouça. Porque a história de Ivinhema não está nos livros — está na memória de quem viveu. Está nas cruzes de ferro fundido que, quem sabe, ainda estão por ali. Está no nome do rio que emprestou identidade a uma cidade que ainda não sabia que ia existir.
E se, ao entardecer, você olhar para o horizonte e ver o cerrado se estendendo até onde a vista alcança, lembre-se: tudo isso já foi mata. Tudo isso já foi fogo. Tudo isso já foi sonho de um paulista que olhou para o nada e disse: aqui.
Foto site Ivinhema na Historia
Bolsão em Destaque — Contando as histórias que formaram Mato Grosso do Sul.