16/08/2020
Por que motivo o "Faz-de-conta" é tão importante?
O "faz-de-conta" (ou brincadeira simbólica) ajuda a expandir as competências de raciocínio das crianças, porque envolve ideias de brincadeira que provêm da imaginação da criança e não do ambiente físico. Quando uma criança pega num animal de brincar e o faz andar, rugir ou comer, essas ideias provêm da mente da criança, ao contrário de o pegar numa peça de quebra-cabeças e inseri-la no lugar, uma ação para a qual os objetivos estão incorporados nos materiais físicos. O aspecto mental do "faz-de-conta" está profundamente ligado à linguagem e a outros tipos de pensamento e, é por isso, uma parte muito importante de desenvolvimento mental ou cognitivo de uma criança.
O que acontece no autismo?
As crianças pequenas com autismo têm dificuldade em aprender e utilizar o "faz-de-conta". Embora vulgarmente revelem muito interesse nos objetos, o mundo do "faz-de-conta" não parece surgir-lhes com naturalidade. As crianças pequenas com TEA podem ser muito adeptas de brincadeiras com quebra-cabeças, blocos, caixas de encaixe, letras e números, contudo, quando se deparam com uma boneca, uma colher e um prato, elas parecem não ter ideia do que fazer com estes objetos. O "faz-de-conta" vai para além do utilizar um objeto na sua forma habitual (tal como pegar um garfo e leva-lo a boca), embora esse seja o excelente ponto de partida, envolve usar ideias que vêm da imaginação e não dos próprios objetos (tal como fazer de conta que há gelado numa taça, ir lá com a colher, fingir comer e depois ir buscar outra colher e dizer, queres um pouquinho?
Por volta dos dois anos de idade, as crianças começam normalmente a utilizar o "faz-de-conta". Todavia, este desenvolvimento do "faz-de-conta" não emerge naturalmente na maioria das crianças com TEA, precisa ser ensinado.
As competências de brincadeira imaginária estão intimamente ligadas ás competências de linguagem. Estudos mostraram que quando uma criança com TEA desenvolve o "faz-de-conta", as suas competências de linguagem também aumentam, ainda que a terapia se tenha concentrado apenas em melhorar as competências do "faz-de-conta" e não diretamente a linguagem. Porque? As atividades do faz-de-conta ensinam competências a uma criança que lhe permitem desenvolver uma "experiência partilhada" com outras pessoas, um foco conjunto de atenção. Isso proporciona um contexto para desenvolver, usar e praticar linguagem.
Livro Autismo compreender e agir em família. Pag. 255/256.