19/06/2021
TELHAS “FEITAS NAS COXAS” ????
Umas das características da arquitetura colonial que perduram até hoje são as telhas e telhados.
Nesse período, as coberturas das casas eram similares as ocas indígenas ou a algumas moradias africanas, feitas apenas com palha ─ o sapé, sendo ainda encontradas em algumas áreas rurais de hoje. Os telhados e suas estruturas eram feitos de madeira, às vezes complementados por caibros, com tipos variados de tesoura e com beirais, que eram um item importante para a proteção das paredes de barro das águas da chuva.
Em construções mais ricas as telhas de barro (cerâmica) foram no começo as mais utilizadas popularizando-se com o decorrer do tempo. Os tipos usados na época eram: telhas canal ou capa canal, telhas francesas, ou Marselha e as telhas romanas.
As telhas canal, também eram chamadas de telha colonial, de capa e canal, capa e bica, e "feitas nas coxas". Esta última denominação um tanto pejorativa e porque não dizer, “racista”, popularizou-se e é motivo de controvérsias e estudos quanto a sua origem.
A origem dessa expressão, segundo dizem, vem da época da escravatura no Brasil. Por ser uma telha de forma tronco cônica de custo barato, de fácil produção no próprio local do trabalho e por não ter padronização, sem contar as diferenças de qualidade entre os muitos fabricantes, acabaram por originar a expressão popular “feita nas coxas dos escravos” (ou “das escravas”).
Em sua tese, “Eram as telhas feitas nas coxas das escravas?”, o arquiteto restaurador e professor de Arquitetura da UFPR, José La Pastina Filho, contestou a veracidade ou não dessa expressão, com base em pesquisas e obras de restauração que realizou por 30 anos e, após uma oficina com seus alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo, verificou que o processo tradicional de fabricação de telhas do tipo capa e canal (ou goivas, de canudo, romanas, meia cana, coloniais, etc.) é bastante simples e não envolve avançadas tecnologias. E concluiu... “[...] com convicção a inconsistência da assertiva popular - telhas feitas nas coxas dos (as) escravos (as) – tomando as medidas das coxas de um homem de 1,80m de altura e verificamos que, usando-a como molde, só seria possível a fabricação de uma minúscula telha de 36cm de comprimento. ... Além de em termos de otimização de força de trabalho, mesmo numa sociedade escravocrata, seria uma perda substancial na força de trabalho necessitando um escravo imobilizado, com lâminas de barro sobre suas duas coxas, e pelo menos dois outros para remover cada uma delas e transportá-las ao estaleiro.”
Assim, com o passar dos tempos, a expressão “feito nas coxas” ficou marcada como coisa mal feita, sem qualidade, produzida de qualquer jeito.
Referências bibliográficas:
La Pastina Filho, José. ERAM AS TELHAS FEITAS NAS COXAS DAS ESCRAVAS? , Arqueologia, Cap. V.10. 2006 , https://journals.kvasirpublishing.com/arq/article/view/64/144)
ARQUITETURA COLONIAL DO BRASIL - BARROCO RELIGIOSO https://pt.wikipedia.org/wiki/Arquitetura_colonial_do_Brasil %C3%A2neo