No Ceará, o risco de um homem, exemplar ou não, se chamar José, é muitíssimo grande. Aqui e agora homenagear-se-á um José, um José cearense exemplar dos Josés exemplares forjados nestas terras no correr dos séculos, neste caso, no correr do século XX. O gosto, de José Ferreira Alencar, pela relação entre compreensão teórica e prática social f**a evidente pelos indicadores de uma carreira de sucess
o, carreira em paralelo com um Brasil que se descobria e flexionava os músculos para uma espécie de desenvolvimento capitalista, periférico, dependente, industrializado de modo truncado, com soberania política, cultural e econômica determinadas de fora para dentro. José é síntese e testemunho de seu povo. José é síntese e testemunho deste Brasil, com suas contradições e dores, seus acertos e fracassos, suas vitórias e derrotas, na 2ª metade do século XX. Ele nasceu em Messejana, a 31 de dezembro de l931, quando o Tenentismo ainda parecia Revolução. Filho do agricultor Guilherme de Alencar Filho e da professora primária Maria Luisa Ferreira, fez seu próprio curso primário no Colégio Castelo Branco, da Arquidiocese de Fortaleza, e o curso secundário, no Colégio São José. Então realiza licenciatura e bacharelado em Filosofia e Historia na Faculdade Católica de Filosofia do Ceará. José é síntese, síntese crítica, não apenas tendência média estatística: senão teria morrido de diarréia antes do primeiro ano de vida e, se sobrevivesse à mortalidade infantil, não chegaria ao curso superior. Beneficiando-se das novas instâncias político-administrativas criadas no país, José ingressa, por concurso público, como auxiliar de escritório, no Banco do Nordeste do Brasil. Mas a sua inquietação pessoal e sua consciência atenta ao mundo não lhe permitiriam continuar longe das lides políticas e intelectuais, então ingressa no Instituto de Antropologia da Universidade Federal do Ceará-UFC, onde inicia brilhante carreira. Este tempo é prenhe de feitos. Coordena os trabalhos de campo da “Pesquisa Sócio-Antropológica de Pacajús”, sob a direção geral do Professor Florival Seraine. Recebe a primeira bolsa da Comissão Central de Pesquisa da UFC, com o apoio dos Professores Prisco Bezerra e Manoel Mateus Ventura. Inicia o exercício da docência na Faculdade de Filosofia e Letras, responsabilizando-se pela Disciplina “Cultura Brasileira”, a convite do professor Valnir Cavalcante Chagas. Sob a direção geral do professor Thomás Pompeu Sobrinho, realiza a “Pesquisa Sócio-Antropológica de Quixadá” e organiza o "Projeto Juatama", um programa de desenvolvimento para o sertão central cearense, apresentado ao então Governador Virgílio Távora e incorporado às Metas de Governo. O nome deste José começa a se internacionalizar, por meio da secção Ceará da Pesquisa "Uso e Posse da Terra na América Latina", produto de extensa parceria que envolveu vários entes da Organização das Nações Unidas-ONU (FAO, ILCA, OEA, CLACSO), sob a coordenação de José Artur Rios e direção geral de Ernst Feder. Os resultados deste trabalho são publicados e merecem comentário de Manoel Diégues Jr, Josué de Castro, Thomás Pompeu Sobrinho, Simon Barraclough e Magnus Mörner. Convidado pelo professor Raúl Benítez Zenteno, Diretor do Instituto de Investigações Sociais-IIS da Universidade Nacional Autónoma do México-UNAM, colabora na Pesquisa "Sobre o Processo de Mudança Sócio-Cultural no Nordeste Brasileiro" coordenada por seu irmão, o professor Francisco Ferreira de Alencar, que, por motivos derivados do recrudescimento do autoritarismo político brasileiro, exercia suas atividades de docência e pesquisa naquela unidade universitária. Francisco é outro grande risco cearense de nome próprio. Então é Francisco este outro filho do agricultor Guilherme e da professora primária Maria Luisa. Mas José também se torna vítima da relação entre a força de suas idéias libertárias, de suas convicções políticas organizadas pela perspectiva da dialética marxista e tem suas atividades acadêmicas interrompidas no Instituto de Antropologia da UFC, pois, juntamente com muitos outros professores e funcionários públicos, foi perseguido e, eufemisticamente, "posto em disponibilidade", por ato do Governo Militar Brasileiro. Convidado pelo professor Magnus Mörner, Diretor do Instituto de Estudos Latino Americanos da Universidade de Estocolmo, viaja à Suécia e é admitido como Pesquisador Visitante, desenvolvendo suas atividades durante dois anos, quando decide regressar ao Brasil. Planta do quente semi-árido não viceja fácil no frio ártico. Assim reinicia suas atividades na UFC, exercendo docência na Faculdade de Educação-FACED. José Ferreira Alencar iniciou sua militância política em 1944, quando ingressou na Juventude Comunista do Partido Comunista Brasileiro-PCB. Posteriormente tornou-se membro do “Partidão”, atuando em suas diversas organizações, entre elas o Jornal O DEMOCRATA, onde exerceu durante muitos anos sua militância intelectual e política, tornando sempre idéia e ação um único movimento transformador. Sempre esteve nas linhas de frente dos movimentos de luta do povo brasileiro pelos direitos da classe trabalhadora, apoiando-a no esforço de construir uma cultura contra-hegemônica, revolucionária, capaz de libertá-la e a todo o povo, e pela produção de uma democracia autêntica e radical, que atravessasse o público e o privado, o Estado, a Sociedade e a Economia. As contradições da vida política brasileira, as contradições dos próprios movimentos populares e as traições de classe, efetuadas pelas elites que surgem na própria luta de classes, sempre encontraram em nosso José a interpretação cáustica e acurada, a denúncia crítica necessária, a centelha de fogo de um pensamento ativo. Encerrou sua vida política como militante do Partido Comunista Marxista Leninista, que ajudou a fundar, como membro destacado do Corpo Editorial do Jornal INVERTA. Depois de cumprida sua missão na UFC, o guerreiro não poderia recolher-se aos aposentos, ao ócio burguês, enquanto o país lutava para se reerguer da noite da violência autoritária. E encontrou na Universidade Estadual do Ceará-UECE e na Central Única dos Trabalhadores-CUT, o útero adequado para semear um novo sonho, um sonho de maturidade, o da criação do Instituto do Movimento Operário-IMO, em 1993. Indicado, pela CUT, para exercer a função de Diretor do IMO, desenha sua organização institucional, seduz grandes pesquisadores para aquele trabalho, anima a imaginação ardente de doutorandos, mestrandos e graduandos, estimula as linhas de história do movimento operário cearenses, de educação política para a emancipação dos trabalhadores e de saúde e trabalho, e desta trincheira só se afasta por motivo de grave enfermidade, nascida remotamente nos porões da tortura, agravada com o inexorável e humano correr dos anos. José faleceu em 2005, com 74 anos de resistência e audácia revolucionária. E todos souberam que ali morria um justo. A memória física de sua identidade dilui-se, suavemente, no seio da terra de sua Messejana natal, no túmulo da família do Coronel Tristão Antunes de Alencar, nobre raiz de bravos independentistas, abolicionistas, republicanos, socialistas, pois cada tempo dá novo epíteto aos seus heróis idealistas. Mas o espírito de José continua a aventura crítica da vida em seus filhos, alunos, discípulos, amigos, admiradores. Até neste outro e muitas vezes distante José, escolhido para homenageá-lo. Um atormentado José que não se sente à altura, mas não teve coragem para recusar a tarefa de expor os altos píncaros desta história tão singular, quanto exemplar. José Ferreira Alencar constitui vida exemplar por suas escolhas, o rigor destas escolhas, a coerência destas escolhas, a aliança entranhada com os anônimos, os sem riqueza e os sem poder. José Ferreira Alencar ofereceu ao seu povo a força de sua inteligência privilegiada, de seu otimismo generoso, de sua enorme capacidade de suportar dores, frustrações, e nunca desistir, um herói da classe operária.