25/06/2018
CONTOS DA MINHA TERRA.
JULIANA CARVALHO.
Mineiro que é mineiro tem sempre uma banda no coração. Mineiro de Formiga tem uma fanfarra.
Anos de chumbo da ditadura militar no Brasil.
Tempos difíceis... Para a arte, a cultura, a expressão literária e para quem sabia expressar o pensamento. Tempo de silêncio e amor obrigatório à pátria, em quase todo o país. Em Formiga, nem tanto, porque a vida morna e calma, prometia poucas emoções e a natureza pacata da cidade e dos seus cidadãos, imperava naquela época, depois, o formiguense é dos mineiros mais autênticos, e gente de verdade, faz o que os faz bem e feliz.
Na segunda semana do mês de Maio começava o alvoroço. Todos os alunos da Escola Normal Oficial Newton Pires ficavam muito atentos para o dia em que o quarto de despejo fosse aberto.
Um cheiro de m**o insuportável exalava no ar quando se abria o tal quarto de uniformes e instrumentos que ficava embaixo da escadaria, num pequeno cômodo, ao lado esquerdo de quem entrava, na enorme escola de bela arquitetura.
Durante todos os anos de sua existência formou alunos de todas as classes sociais. Na minha época, escola pública tinha qualidade e os alunos davam orgulho às instituições, que eram sérias e muito comprometidas. Deve ser assim ainda, e quero crer que seja, não posso, porém, afiançar ou fazer qualquer juízo de valor, pois a muitos anos não a visito.
Todas as gerações das décadas de 60, 70, 80 conheceram esse cômodo da gloriosa Escola Normal, que primeiro era denominada como já citado acima, depois foi renomeada por Escola Normal Oficial de Formiga, e mais recentemente ainda, foi chamada de Escola Estadual de Formiga, antes de sua nomenclatura atual, Escola Estadual Jalcira Augusta dos Santos Valadão.
A lembrança me reporta à fachada do prédio vermelho de janelas beige, com jardins na frente, cuja primeira janela a direita térrea, de quem o olhava o prédio de frente, abrigava a diretoria, onde D.Sônia de Freitas Castro a diretora e dona Lucinda Santos Gea (Luluta) eram avistadas sempre em dupla, na gestão da enorme escola de 2.000 alunos na época.
Na segunda janela e nas seguintes da direita, ficava a secretaria da escola, Dona Lia, minha mãe, a secretária da época e suas auxiliares: D. Hilária Nogueira, Aparecida, mãe de Michel e Sigrid, Mariza que depois formou-se em Batatais e passou a lecionar Educação Física, D. Vitória da Drogaria Santa Maria, D. Ester Nogueira faziam o registro de todos os alunos, notas diplomas, históricos, folhas de pagamento dos docentes, etc.
Vizinha à secretaria do lado interno, ficava a enorme Biblioteca, sob a orientação de D. Norma e Agda Vaz Tonelli.
O saguão em mármore cinza, já bem gasto desde minha época, com belos corrimãos na imponente escada, que dava acesso as salas de aula do segundo piso, era passagem para todos os alunos à todas as dependências da escola e ao lado da porta principal à direita de quem entrava a mesinha de madeira com a cadeira, onde o Sr. Inocêncio, porteiro da escola, figura humana inigualável na humildade e trato com seu semelhante, cumpria seu dever de funcionário público, carimbando a presença ou ausência em cada caderneta escolar dos alunos da escola.
Do lado oposto à diretoria ficava a sala dos professores, esses, eram muitos, e alguns participaram da minha formação na época, a sala era freqüentada por professores de toda a escola e eu estava apenas em uma das séries no ginasial. Em outro momento, farei descrição mais detalhada dessa linda escola, que além dessas dependências descritas ainda contava com várias outras, mas voltando à narrativa.
Não conheci nenhum adolescente dessas gerações dos anos 60,70 e 80 que não se encantasse perdidamente, com a possibilidade de tocar na fanfarra.
Quando o porteiro Inocêncio abria o fétido cômodo, malcheiroso de m**o misturado com BHC, e Messias o treinador da fanfarra ou Dona Luluta, se punham na porta dele, iniciava o leilão de expectativas. É que os alunos que formavam no científico saiam da tradicional fanfarra Maria de Lourdes Vaz, quando era dada oportunidade aos novos candidatos a assumir um instrumento e uma vaga na maravilhosa fanfarra.
A distribuição não tinha muito critério, a vaga era ocupada por quem chegasse primeiro e daí o integrante tinha que aprender, em tempo recorde, os toques, e pior, se não aprendesse, tinha que passar o instrumento tão disputado para outro integrante, e só não ocorria isso, com quem tinha instrumento próprio, o que era o caso de muitas garotas que tocavam scaleta da minha época, inclusive eu.
Aliás cabe destacar, que as mulheres só foram admitidas na fanfarra em primeiro momento para tocar exclusivamente Scaletas, com o tempo fomos conquistando espaço e passou-se a dar oportunidades em outros instrumentos.
Além da disputa ferrenha por instrumentos, ainda tinha a disputa pelos uniformes e quepes, que eram levados para serem lavados e rigorosamente passados a ferro impecavelmente para o dia do desfile.
Distribuídos os instrumentos, Messias levava todos os músicos da fanfarra para o pátio central da Escola e iniciava os ensaios.
Os quatro bumbos ruflavam o início do toque chamando a percussão, as cornetas bem afinadas acordavam no fundo levantando o sopro da banda em estridente algazarra, o surdo marcava a cadência, chamando os taróis a apresentarem seu monumental show. Vez ou outra, a fanfarra baixava o tom e apenas com a marcação da percussão do surdo e dos bumbos e a ajuda do pistão tocado por Messias ou Jefferson, ouvia-se o som abafado dos pífaros e das scaletas em rítimos de sucessos da época, como: Tema de Lara, Eu te amo meu Brasil, hino da bandeira, entre tantos outros que haviam e que me falha a memória os nomes.
Todos os dias as 16:30 horas sem falta, estavam todos na escola reunidos para o ensaio. O compromisso era abraçado por todos, com a disciplina de um quartel. Todos nós, sem atraso, comparecíamos e levávamos aquilo muito a sério. Ninguém faltava aos ensaios de medo de perder a vaga, o instrumento, a oportunidade.
E por falar em oportunidade, nossa geração tinha bem poucas, o Cinema, o Clube Centenário, a Lagoa, a Praça de Esportes, a Exposição Agropecuária, os eventos de 6 de junho e 7 de setembro, a missa, a Lanchonete Pilão e o Papo de Anjo, a Escola, o Colégio, o Carnaval.
Então os ensaios eram um acontecimento na cidade. Importante destacar, a ferrenha rivalidade das fanfarras que existiam na época, Escola Normal, Colégio Santa Terezinha, Ginásio Antônio Vieira, Colégio de Aplicação, se enfrentavam nos desfiles em concorrência de qual fazia o mais belo desfile. E na maioria das vezes eu ficava dividida entre uma escola e outra, pois havia estudado em três, primeiro na Escola Normal, e depois o magistério no Santa Terezinha e o Técnico no Ginásio Antônio Vieira.
O chato é que isso durava muito pouco, na verdade, a Escola Normal por ser mais numerosa em alunos, e por ter maior número de instrumentos fazia mais presença, enquanto o Colégio Santa Terezinha, por educar a elite da cidade da época, fazia um desfile mais caro e elegante, mas, no todo, a Escola Normal acabava por sobressair com seu glamour, suas lindas bandeiras, carros alegóricos, balizas muito bem treinadas e um número grande de integrantes.
Um dia antes da apresentação, os preparativos eram revisados, o alinhamento das filas, a evolução da fanfarra, as peles dos instrumentos, os bocais sobressalentes, os toques, os congas (tênis), a roupa impecalvelmente passada, o cabelo, o quepe, o penacho do quepe, tudo era rigorosamente observado nos mínimos detalhes.
No dia do evento, as famílias formiguenses acordavam cedo e dirigiam-se aos cordões de isolamento, que eram respeitados fielmente, outros, que tinham o privilégio de morar no alto, abrigavam vizinhos e amigos para assistir o espetáculo do desfile.
Abria o desfile os rapazes do tiro de guerra, em inigualável linha. Filas e uniforme alinhadíssimos, bem passados, armas limpas ao ombro, com baionetas apontadas para cima. O corte de cabelos perfeito, sob a direção do competente Sargento Batista, que quando foi promovido a Sub tenente, ainda assim, tinha quem o chamasse de Sub tenente Sargento Batista, pelo hábito de chamá-lo pela patente antiga.
A Escola Normal aparecia após o Tiro de Guerra, com seus ponteiros e balizas, a gloriosa fanfarra (premiada até em Belo Horizonte nos Jogos da Primavera), sob os cuidados de Messias e os infindáveis pelotões, cada um representando um tema e carros alegóricos muito bem ornamentados.
O Ginásio Antônio Vieira vinha em seguida com sua fanfarra comandada pelo Tenente Oscar, e seu uniforme de gala verde e branco na mais tradicional linha social.
O Colégio Santa Terezinha, abrilhantava o desfile com suas lindas estudantes em uniforme de gala azul marinho e branco, meias três quarto, sapatilhas de verniz de bico fino, sem salto, boinas, instrumentos limpos e brilhantes e seus pelotões, balizas, carros alegóricos.
Também os Grupos Escolares, e outras escolas da cidade compareciam cada um dentro de suas posses e obrigatóriamente cumpriam seu dever de cidadão, mostrando sua cota de amor à pátria que a ditadura exigia.
Diante do palanque que era usualmente armado, na Praça Getúlio Vargas, em frente ao Bazar Guri, onde autoridades se reuniam, discursavam e assistiam o melhor que o desfile trazia, as evoluções, os novos toques das fanfarras, os carros e idéias geniais que surgiam no propósito das instituições fazerem boa figura eram exibidos diante das autoridades.
Findando as solenidades e o desfile, cada um voltava faminto para sua casa e após devolver instrumentos, retirar uniformes, alimentar-se, voltava às suas rotineiras atividades, apenas com as lembranças de um dia de gala na cidade, que se repetiria a cada ano em duas datas nas Areias Brancas.