16/01/2026
POR UM OUTRO ARACUÍ (2026)
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Voltar o olhar para Aracuí, agora em 2026, depois de 20 anos residindo em Rondônia é constatar que muitas das transformações observadas anos atrás não apenas se consolidaram, como também aprofundaram suas contradições. Nossa pequena e centenária comunidade seguiu crescendo. A expansão urbana avançou morro acima, morro abaixo, quase sempre sem planejamento adequado. A chamada rodovia do contorno segue empurrando para dentro do distrito um fluxo intenso de veículos de grande porte, transformando ruas residenciais em corredores de tráfego pesado.
O parque industrial se manteve e se ampliou. Serrarias de granito e mármore, frigorífico, granja, atividades logísticas e serviços associados seguem movimentando a economia local. Aracuí consolidou-se, de vez, como polo industrial e área estratégica de expansão urbana de Castelo. Do ponto de vista econômico, não há como negar: empregos foram criados, renda circulou, impostos foram arrecadados. Parte da população passou a ter mais acesso a bens de consumo, veículos, serviços e alguma melhoria material.
Mas “desenvolvimento” para quem? E a que custo?
Quando deslocamos o olhar da economia para a qualidade de vida, o cenário muda drasticamente. Persistem — e em muitos casos a degradação socioambiental se aprofundou. O modelo de urbanização periférica permanece reproduzindo desigualdades. Conjuntos habitacionais continuam sendo implantados em áreas inadequadas, sem infraestrutura suficiente, concentrando famílias em situação de vulnerabilidade social. Cresce a população infantojuvenil sem que o poder público acompanhe com creches, escolas bem estruturadas, espaços de esporte, cultura e lazer. Crianças e adolescentes seguem expostos à evasão escolar, ao trabalho precoce, ao tráfico de dr**as e a outras formas de violência social.
No campo ambiental, o quadro permanece alarmante. Cursos d’água seguem recebendo lixo, esgoto e resíduos diversos. A poluição sonora continua fazendo parte do cotidiano, seja pelo tráfego incessante de caminhões durante a madrugada, seja pelo funcionamento contínuo dos teares industriais. Soma-se a isso a poluição do ar, a poluição visual e a poluição odorífera, que afetam diretamente a saúde e o bem-estar da população.
A presença de uma Estação de Tratamento de Esgoto incrustada no coração do conjunto habitacional Francisco de Souza Olmo, vulgo Pantana, segue sendo um símbolo claro da ausência histórica de planejamento urbano e de ordenamento territorial. Um erro que não é apenas técnico — é político.
Não se trata de ser contra o crescimento, o progresso ou o desenvolvimento. Essa discussão já está superada. O problema é o modelo de crescimento que se impôs e se mantém: um modelo que privilegia a reprodução infinita do capital, o lucro imediato e a apropriação desordenada do território, enquanto empurra para segundo plano a saúde pública, o meio ambiente e a dignidade das pessoas. PIB não é sinônimo de qualidade de vida, crescimento econômico não é sinônimo de desenvolvimento.
A chamada responsabilidade socioambiental segue, em muitos casos, restrita ao discurso institucional. Na prática, grandes empreendimentos continuam degradando o ambiente com a complacência — quando não com o apoio direto — do poder público. E a conta, como sempre, f**a para a coletividade.
Hoje, em 2026, a pergunta que se impõe é simples e incômoda: até quando?
Aracuí não é um lugar qualquer. É território, é história, é comunidade. Mudar essa realidade continua sendo uma tarefa difícil, mas segue sendo possível. Primeiramente exige dos professores do município uma ação educadora ambientalista revolucionária, comprometida com mudanças culturais profundas, incentivando os estudantes a pensarem: quem que eu sou? Por que que eu existo? Para onde que eu quero caminhar? Quais são meus propósitos existenciais? Ao formular essas perguntas mais fundamentais e existenciais você se questiona em termos de necessidades materiais, em termos de compreensão dos nexos de causalidade.
O passo seguinte exige organização, participação popular e enfrentamento político. Exige que a população transforme indignação em ação concreta. É inaceitável que um distrito com tamanha população, importância econômica e peso territorial continue sem representação efetiva no legislativo municipal. Eleger um vereador comprometido com Aracuí é uma necessidade urgente. Mas isso, por si só, não basta.
É imperioso subverter a desordem, ocupando os espaços de poder: Prefeitura, Câmara de Vereadores, Conselhos Municipais, Ministério Público e Associação de Moradores. É preciso cobrar, denunciar, protestar, mobilizar, interromper a normalidade quando a normalidade signif**a adoecer, morrer no trânsito ou conviver com a poluição, contaminação, degradação socioespacial, ambiental e injustiça climática. Isso não é vandalismo nem subversão. É exercício legítimo da cidadania em defesa de nossa morada e da vida.
Em resumo, pactuar formas de convivência onde todos tenham acesso à terra, natureza, moradia, trabalho, espaços de fala, comunicação e decisões políticas. É fácil? Não. Vai cair do céu? Não. Em uma democracia representativa fragilizada como a nossa, quando o poder público se mostra omisso ou capturado por interesses privados, a soberania popular deve prevalecer. Controle social e participação popular não são favores concedidos: são direitos conquistados!
Concluo, recorrendo ao poema PARA OS QUE VIRÃO do imortal poeta amazonense, Thiago de Melo, que enuncia com lapidar clareza que à união e à luta por um futuro mais justo passa pela superação do individualismo em prol da coletividade: “Não importa que doa: é tempo de avançar de mão dada com quem vai no mesmo rumo, mesmo que longe ainda esteja de aprender a conjugar o verbo amar. É tempo sobretudo de deixar de ser apenas a solitária vanguarda de nós mesmos. Se trata de ir ao encontro. (Dura no peito, arde a límpida verdade dos nossos erros.) Se trata de abrir o rumo. Os que virão, serão povo, e saber serão, lutando.”
ALAN DUARTE DO ESPÍRITO SANTO
Aracuí, Castelo-ES, 15/01/2026.