27/01/2017
Continuação...
Livro: Carnaíba: A Pérola do Pajeú
Pe. Frederico Bezerra Maciel
A FAMÍLIA
Concluída a residência em tempo de chegar sua família – a esposa Ana (da família Leandro, de Nazaré da Mata) e três filhos – que mandara ver. Essa pouca “famiação”, porém, iria aumentar, ali na nova terra, até inteirar dez, cujos nomes, sem ordem, eram: João, Simplício, Antônio, Manuel, Luís (o caçula de todos), Ana, Severina, Raquel, Isabel e Vilante. Todos casados e com descendência, agropecuaristas e usando apenas o sobrenome Gomes.
Com o tempo e a necessidade de se arrecursarem, foram se espalhando pelos sítios e ficando conhecidos e chamados, dentro do costume vigente – terra confere “status” -, pelos nomes das propriedades que possuíam e em que residiam!
- Simplício do Capim Grosso;
- João Alferes da Cacimba Velha;
- Luizinho do Poço do Pau;
- Manuel da Barroca;
- Isabel do Jatobá.
Apenas Severina, Ana, Raquel e Vilante ficaram morando na rua.
CINCO FILHOS
SIMPLÍCIO
Homem de bem, casado e trabalhador, generoso e de muita franqueza. Uma vida cheia de episódios curiosos.
Assinava –se de três maneiras: Simplício Gomes de Andrade, Simplício Gomes do Nascimento e Simplício Gomes dos Reis. O primeiro, dizia ele, “por convicção”; o segundo, “porque acho bonito”; e o terceiro, “porque esse é meu nome assim como está escrito lá em baixo”, isto é, em Olinda. Conhecido, porem, popularmente por Simplício do Capim Grosso, propriedade, a Nordeste, logo após Carnaíba.
Era excelente a sua caligrafia.
Fabricante de telhas de barro. Para ter fogo fácil no dia seguinte para o forno, seguia a praxe dos oleiros: à noite, enterrava na cinza do forno pedaços de carvão aceso, feito esse carvão de madeira boa de conservar fogo, como angico, catingueira e catinga branca, esta chamada também de quebra - faca; pela manhã, sobre achas esfachiadas de marmeleiro, pau mole e bom pegador de fogo, soprava atiçado as brasas e acendendo as achas.
Possuía um “terno”(conjunto musical rústico): pifes (dois), caixa e zabumba (bombo). O tocador do bombo procurando tirar um defeito de seu instrumento, rasgou o couro. Afuleimado, disse Simplício: - “Decerto, na verdade, quem quiser terno que faça ou compre”. E quebrou todos os instrumentos.
Em sua casa servia de mesa um couro de boi, que guardava dependurado na parede. Na hora do almoço ou janta, batia, no lado de fora, com um pau, a poeira do couro antes de estende – ló no chão, onde se colocavam tigelas de comida e pratos com colheres de “frande” (flandres) ou lata. Os comensais ocorriam logo ao escutar as batidas no couro, enchiam os pratos e comiam sentados em paus, cepos ou pedras por ali encontrados.
À noite, depois da ceia e boa prosa, achando chegada à hora de despedir o pessoal, tirava ele de uma grande telha que fabricara, pedaços finos e já esfachiados de marmeleiro ali arrumados, acendia – os com o matricó e os entregava a cada um dizendo com sua voz grossa e gutural: - “Decerto, na verdade, quem tem casa é hora de procurar”. E todos se retiravam alumiando o caminho com a luz dos fachos.