Carta aberta a toda comunidade acadêmica e a cidade de Campos dos Goytacazes
Nós, estudantes negros e negras e moradores da cidade de Campos dos Goytacazes, viemos comunicar por meio desta carta a formação do Coletivo Negro Mercedes Baptista através da organização coletiva com o objetivo de afirmação da identidade negra. Pretendemos fomentar e engrossar luta anti racismo, na busca constante pela
igualdade e no combate intransigente a quasquer tipo de autoritarismo e opressão da cultura negra. Empreendemos esforços para a valorização da história do negro, ao qual a cultura dominante reserva a um papel de coadjuvantes. Estamos nós, munidos de valores éticos emancipatórios lutando em prol da diversidade humana e religiosa, estética e de comportamento. O resgate do protagonismo filosófico, contra o eurocentrismo e pratriarcalismo da história oficial, se coloca como um desafio essencial e crucial para tal reconhecimento. Estamos presentes na primeira cidade a receber a luz elétrica e a que já foi o pólo central da economia no país, e nesse processo recorrente a submissão do negro, a grande exploração do trabalho e grande desigualdade de renda, foi uma das últimas a romper com a escravidão. Ainda hoje no cotidiano é evidente a desigualdade de acesso, ao desenvolvimento, que é e foi socialmente construído. Enquanto movimento social é necessário o resgate e defesa da nossa identidade na mesma medida, defesa e ampliação de direitos sociais. A nossa luta também é uma luta de classes, classe essa trabalhadora que compreende hegemonicamente a população negra. Mesmo sendo iniciado em uma universidade federal onde há a predisposição a debates, ainda precisamos, em coletivo, fomentar a discussão com foco nas questões negras, criando um ambiente desconstrutivo e de destaque á nossa realidade, que em atitudes como trotes e conversas são explicitados pensamentos ainda racistas. O nome do coletivo resgata a história de Mercedes Baptista, negra, nascida em Campos, que migrou para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida, onde se interessou por dança e passou a integrar o corpo de balé do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Mesmo fazendo parte do corpo do Baile, teve poucas chances de atuar, o que marcou o racismo vivido, também, durante a sua carreira. Usufruindo de sua vivência e unindo forças com outros negros que também lutavam contra a descriminação, criou espaços para lutar contra o preconceito. Fez parte do Conselho de Mulheres Negras, e fundou um grupo formado por artistas negros, onde desenvolviam pesquisas e divulgavam a cultura negra e afro-brasileira. Abriu os horizontes da dança e introduziu elementos afro na dança moderna brasileira. Ela teve grande destaque em escolas de samba do Rio de Janeiro, como a Salgueiro, e foi a idealizadora das alas coreografadas nas escolas. Ela influenciou a dança também fora do Brasil, e aqui, na escola do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, introduziu a disciplina dança afro-brasileira. É um nome respeitado, inclusive ao que diz respeito á valorização da identidade afro e culturas de matrizes africanas na dança. Por meio deste convidamos principalmente o povo negro a participar das reuniões, atividades, debates, estudos e lutas junto ao coletivo.