19/08/2021
O dia 19 de agosto é marcado historicamente no estado de São Paulo, por representar o “Stonewall Brasileiro” por conta do levante que ocorreu no Ferro’s Bar no ano de 1983. Localizado próximo à Avenida 9 de Julho, no centro da cidade, o bar foi um ponto de encontro de mulheres lé***cas da década de 60 à 90, e que anteriormente, era frequentado por militantes comunistas, no entanto, após o golpe, passou a ser um importante local para os encontros LGBTs na cidade¹.
A história de luta do movimento lésbico no Brasil é marcada por dificuldades e confrontos tanto no movimento feminista quanto no LGBTQIA+. O início das movimentações lé***cas organizadas no país se deu a partir do Grupo Somos/SP, pioneiro no movimento LGBT, em fevereiro de 1979². Pouco tempo depois, foram notados diversos tipos de opressões de cunho machista por parte dos g**s, e com respaldo da luta feminista elas apontaram suas especificidades como mulheres – e não apenas como homossexuais femininas – geram dupla discriminação². Como lé***cas feministas, decidiram então atuar como um subgrupo dentro do Somos, o Grupo de Ação Lésbico-Feminista ou apenas LF, com posicionamento político de independência frente à centralização do poder masculino².
Em abril de 1980, em São Paulo aconteceu o I Encontro Brasileiro de Homossexuais (EBHO), com presença majoritária de g**s, o LF esteve presente trazendo discussões sobre as lé***cas, o machismo e o feminismo². Após a participação de algumas lé***cas e g**s do Somos na passeata do 1º de Maio de 1980, instalou-se uma divisão irreconciliável dentro do grupo e o LF reconheceu que não fazia mais sentido continuar brigando dentro do Somos².
No dia 17 de maio, as lé***cas se retiraram de forma definitiva do grupo e tornaram pública a autonomia total do LF, mudando o nome do grupo para Grupo de Ação Lé***ca Feminista (Galf), que atuava dentro do gueto de lé***cas vendendo boletins, panfletava folhetos de conscientização sobre discriminação e violência contra as lé***cas e divulgava as atividades do grupo². Atuou fortemente contra a onda de prisões arbitrárias, de torturas e de extorsão comandadas pelo delegado José Wilson Richetti a partir de abril de 1980, ainda durante a ditadura civil-militar de 1964².
O episódio no Ferros’s Bar é marca da repressão, mas também de resistência, que devem ser lembradas na trajetória do orgulho lésbico. O número um do primeiro boletim das lé***cas no Brasil, o Chana com Chana, lançado pelo Galf em 1981 e circulou até 1987 para divulgar o movimento. Na noite de 23 de julho de 1983 o dono do local, já frequentado por mulheres, proibiu a venda do periódico ao mesmo tempo que fechava os olhos para produtos como dr**as ilícitas vendidas no estabelecimento.
Lideradas por Rosely Roth, elas resistiram às expulsões violentas e ocuparam o local, no dia 19 de agosto de 1983 as militantes resolveram dar um basta na discriminação: com a presença de outros grupos LGBT, feministas e figuras políticas como o então deputado Eduardo Suplicy, elas leram o manifesto contra a repressão e pelos direitos das mulheres lé***cas. O levante resultou em pedido de desculpas e liberação da venda dos panfletos.
O levante de Ferro’s Bar foi um marco histórico da primeira manifestação lé***ca brasileira, incentivando outros grupos LGBTQIA+ e organizações feministas a reafirmar sua existência e dignidade.
¹- https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/levante-ao-ferros-bar-o-stonewall-brasileiro.phtml
² - https://revistacult.uol.com.br/home/mulheres-lesbicas-feministas-brasil/