09/09/2016
Contra Carta de Goiânia aos jornalistas brasileiros
Nós, jornalistas que atuamos na oposição à atual diretoria da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e que participamos do 37º Congresso Nacional dos Jornalistas, realizado entre 25 e 27 de agosto em Goiânia, manifestamos nesta carta pública nossa posição diante dos rumos que têm tomado a luta pela nossa categoria nos últimos anos.
É cada vez mais evidente o ataque que o governo ilegítimo de Michel Temer vem fazendo aos direitos sociais e dos trabalhadores em benefício do setor empresarial e financeiro. O momento coloca para as entidades sindicais o desafio de unificar e fortalecer toda a classe trabalhadora em defesa de direitos e pela construção de um projeto político que represente os nossos interesses incondicionalmente.
No caso dos jornalistas, o desafio é ainda maior diante da crise de identidade dos trabalhadores com seus sindicatos e a categoria de jornalistas é um bom exemplo desse distanciamento. Isso tem sido evidente com a redução no número de sindicalizados na maioria dos estados e também dos que compareceram às urnas na última eleição da Fenaj, realizada em julho.
Entendemos que fortalecer a categoria passa por ampliar os espaços democráticos nos sindicatos e na Federação, incentivando a participação e não o contrário. O número de participantes do 37º Congresso Nacional dos Jornalistas ilustra, porém, que estamos num caminho inverso. Foram apenas 80 delegados participantes do evento. O número de teses e emendas enviadas ao Congresso também vem diminuindo, passando de 64, em 2014, para 34 neste ano.
A contribuição da direção da Fenaj ao debate no 37º Congresso foi insatisfatória e a condução dos trabalhos pecou, entre outras coisas, pela diferenciação na aplicação de regras entre os participantes. A situação reflete o autoritarismo da direção da entidade, cujo grupo se mantém no poder há mais de 20 anos.
Diante da conjuntura política, a Fenaj escolheu como tema uma discussão inerente à nossa profissão, que foi e sempre será debatida: ética. Diante do momento de graves ataques à categoria, será que era sobre esse tema que devíamos ter nos debruçado agora?
Pouco se avançou em lutas importantes para a categoria, como a democratização da mídia; Conselho Federal de Comunicação e do marco Regulatório da Mídia; a pressão em defesa da exigência de formação específica para jornalistas (diploma); e a unificação de uma pauta nacional de reivindicações dos jornalistas. Mais recentemente temos visto ataques à comunicação pública, com a tentativa de desmonte da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).
Além disso, nenhuma referência à luta pela Democratização da Comunicação foi feita pela diretoria da Fenaj durante o evento. Assumindo o equívoco e sendo pressionada por este grupo de jornalistas, a proposta imposta pela diretoria aos delegados presentes foi acrescentar um parágrafo à tese de conjuntura. Aceitamos com críticas, afinal, seria melhor do que ignorar a importância dessa pauta, como havia feito a Fenaj até ali.
A Federação Nacional dos Jornalistas tem sido uma entidade meramente simbólica, sem força política, burocrática e que pouco tem avançado nas questões de interesse dos jornalistas, no dia a dia da nossa profissão. Sofremos diariamente diversos tipos de violência, como os assédios moral e sexual, desrespeito à autonomia profissional, às questões de gênero e étnico raciais, intolerância, preconceitos e agressões aos profissionais LGBT.
Com uma entidade enfraquecida, vemos dificuldade em organizar a categoria contra as medidas desse Governo em pautas urgentes, como a defesa da EBC; o aprofundamento das relações precárias do trabalho, com pejotização, multifunção, terceirização e até quarteirização; entre outros pontos.
A postura da direção da Fenaj em mais um Congresso Nacional, no qual os jornalistas com pensamentos diferentes não têm o direito de se manifestar sem ser atacados ao microfone pela Executiva da entidade, onde as bases sindicais não se pronunciam e os sindicatos regionais, sem autonomia, pouco apresentam as preocupações da classe, não tem contribuído em nada para a defesa dos interesses da nossa categoria.
O papel da Fenaj, enquanto entidade representativa da classe, vem se deteriorando a cada ano, refletindo-se nas suas ações e nos congressos esvaziados. Se pensarmos sobre qual campanha da Fenaj obteve visibilidade pública e social de interesse dos jornalistas nos últimos anos, chegaremos rapidamente a uma conclusão: muito mal a defesa do diploma.
É preciso recuperar o calor do debate, da manifestação livre, sem censura, sem imposições, consolidando cada vez mais o processo democrático. O fortalecimento da Fenaj passa por uma nova consciência crítica e uma nova postura política diante da própria conjuntura. Queremos uma Fenaj forte, representativa e que dialogue com os trabalhadores da base.
A verdadeira luta por um jornalismo ético e de qualidade, a defesa efetiva dos direitos dos trabalhadores da imprensa e o respeito ao direito social à informação dependem fundamentalmente da atuação da Federação Nacional dos Jornalistas; dependem da luta permanente e contínua; da organização de uma entidade forte, combativa e de base que, sobretudo, dialogue com a sociedade e demais movimentos sociais.
Por fim, este grupo de oposição manifesta repúdio ao recente ataque à democracia brasileira, com a deposição da presidente eleita Dilma Rousseff. Não reconhecemos o governo ilegítimo de Michel Temer como capaz dar prosseguimento aos avanços sociais dos últimos anos no país, nem capaz de governar atendendo aos interesses da grande massa da população brasileira.
Alessandra Lessa – GO
Amanda Nonato – RJ
Anderson Sandes – CE
Angela Marinho – CE
Alvaro Britto – RJ
Bia Barbosa – SP
Bruno Marinoni – RJ
Claudia de Abreu – RJ
Edmundo Continentino- RJ
Elias Santos – PA
Francisco Marés – PR
Gustavo Henrique Vidal – PR
Joana Darc Melo – DF
Jonas Valente – DF
Leandro Taques – PR
Leonor Costa – DF
Luana Soutos – MT
Manu Castro – SC
Marcos Urupá – DF
Mário Sousa – RJ
Michele da Costa – SP
Reginaldo Marcos Aguiar – DF
Salomão de Castro – CE
Samuel Tosta – RJ
Sérgio Caldiere – RJ
Waleiska Fernandes - PR
Wanderlei Pozzembom – DF