10/12/2016
10/12/16 - 03h00
Gláucio Castro
Especial para O Tempo
A professora Gleyce Stenciollie, 31, foi obrigada a descer entre os carros no meio de uma avenida movimentada porque o motorista se recusou a deixá-la no local combinado. O jornalista Marcelo Machado, 44, teve a corrida cancelada, mas recebeu a cobrança da taxa de deslocamento. Já a estudante Karina Silva, 19, foi maltratada quando solicitou um trajeto curto.
Antes queridinho da população, o serviço do Uber começa a contabilizar clientes insatisfeitos na capital mineira. Entre os dez usuários ouvidos pela reportagem de O TEMPO, as reclamações vão de motoristas que não conhecem bem a cidade até cobranças indevidas, além de muitas corridas canceladas. Porém, mesmo com as queixas, muitos ainda continuam achando a nova opção de transporte mais vantajosa que o serviço regular de táxi.
Como se não bastasse a preocupação com a filha internada, Gleyce ainda teve muito aborrecimento ao utilizar o Uber para ir visitá-la. “O motorista não quis parar no local combinado porque, segundo ele, ficou com medo de alguns taxistas. Tive que descer no meio da avenida entre os carros, bem antes do local que eu tinha pedido. Fiquei revoltada”, relata.
Atraído pelo preço mais baixo, Marcelo Machado acabou trocando o táxi pelo Uber em suas viagens a trabalho pelo país. Mas passou pelo mesmo tipo de problema em Belo Horizonte, Brasília e Salvador. Nas três ocasiões, Machado teve as corridas canceladas pelos próprios motoristas sob alegações variadas. Porém, quando recebeu a fatura do cartão de crédito, as taxas de deslocamentos de R$ 7,00 estavam cobradas.
Recorrente. O caso da estudante Karina repete uma das reclamações mais frequentes de quem utilizava o serviço de táxi e migrou para o Uber. “Estava chovendo e peguei o Uber para um trecho curto. Quando eu falei o endereço, o motorista foi muito mal-educado”, diz ela.
Usuária do serviço desde que ele começou a funcionar em Belo Horizonte, a dentista Natália Bomtempo, 30, coleciona situações desagradáveis. Mas a pior delas aconteceu em uma viagem a São Paulo, quando ela acionou por engano o Uber Pool, que compartilha passageiros no mesmo carro. “O motorista foi pegar outro passageiro e não achou. Aí ele disse que eu teria que fazer uma nova solicitação para a gente prosseguir. Só que quando fiz isso, foi acionado outro veículo. Ele me deixou no meio da rua cheia de malas e com coisas de valor. Quase perdi o voo. Pior foi o risco de assalto”, conta.
Desabafo. Sem um telefone gratuito para reclamar, os passageiros utilizam as redes sociais para se queixarem. Algumas terminam em verdadeiros bate-bocas entre usuários e motoristas.
Comunicação
Falta de um canal direto para queixas é outra insatisfação
Como o serviço do Uber não está regulamentado em Belo Horizonte, ainda não existem estatísticas sobre as reclamações dos usuários. Mas, pelas redes sociais, os desabafos são crescentes.
Outro problema que os passageiros reclamam é o fato de não haver telefone nem e-mail direto. O Uber, que tem sede em São Paulo, confirma que a melhor maneira de o cliente demonstrar sua insatisfação é mesmo por meio do aplicativo e que todas as situações são devidamente apuradas, e os motoristas, punidos quando é o caso.
“Essa foi uma grande dificuldade que eu enfrentei quando tive o problema. O consumidor f**a sem um canal para reclamar”, diz o jornalista Marcelo Machado. Na situação dele, as cobranças indevidas foram revertidas em bônus para outras corridas. “Mas se eu não for mais utilizar o serviço deles estou no prejuízo. Pior mesmo é o fato de você f**ar esperando, como aconteceu comigo, e a corrida ser cancelada. Você acaba perdendo muito tempo até conseguir outro transporte”, completa Machado.
Depois de fazer uma reclamação formal por meio do aplicativo, Gleyce Stenciollie ficou satisfeita com o atendimento recebido e garante que não vai abandonar o serviço de transporte. “Eles devolveram o dinheiro da corrida e se mostraram muito solícitos. Além do mais, prometeram que nunca mais mandariam esse mesmo motorista me buscar”, relembra.
FOTO: LINCON ZARBIETTI
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Gleyce Stenciollie teve que descer bem antes de seu destino, no meio de uma avenida movimentada
Polêmica
Liminar é o que garante serviço em BH
O serviço de transporte Uber chegou a Belo Horizonte em 2015, mas ainda não está regularizado e funciona graças a uma liminar da Justiça. Em abril deste ano, a prefeitura da capital regulamentou a Lei 10.900, que proíbe o aplicativo de operar.
Em março, os motoristas conseguiram a primeira liminar, expedida pelo juiz Michel Curi e Silva, da 1ª Vara da Fazenda Pública. No dia 13 de setembro, foi a vez de o juiz Paulo de Tarso Tamburini Souza, da 6ª Vara de Fazenda Pública e Autarquias de Belo Horizonte, conceder outra liminar liberando o serviço na capital.
No fim do mês passado, a prefeitura do Rio de Janeiro também proibiu o serviço, que continua funcionando também com liminar, assim como em BH.
Saiba mais
Cobrança. Algumas mudanças na forma que o valor das corridas é exibido no aplicativo tem gerado descontentamento nos usuários de outros Estados. A alteração faz com que não apareçam mais as notif**ações indicando as tarifas dinâmicas (mais caras). Com o novo modelo, os preços já vêm fixados mesmo nos momentos em que estão mais elevados. O usuário vê o valor final da corrida, mas não sabe mais qual é o aumento em sua tarifa. Isso ainda não está valendo para a capital mineira.
Resposta. O Uber explicou, em nota, que, com o preço pré-definido, os usuários sabem antecipadamente qual será o valor exato das suas viagens. Nestes casos, o usuário é informado de que está pagando uma tarifa mais alta. Ainda segundo o aplicativo, o objetivo é sempre aprimorar o sistema e facilitar o serviço para o usuário.