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https://revistaoeste.com/293315-2/O jurista Walter Maierovitch, um dos mais competentes comentaristas da atual cena jurí...
24/07/2020

https://revistaoeste.com/293315-2/
O jurista Walter Maierovitch, um dos mais competentes comentaristas da atual cena jurídica brasileira, propõe uma hipótese interessantíssima para a possível consideração dos nossos senadores e ministros do Supremo Tribunal Federal. Digamos que um senador da República mate a própria mãe (Maierovitch não entra nesses detalhes; refere-se apenas a um possível homicídio por parte do senador) e esconda a ossada, ou os chamados restos mortais, num armário no seu gabinete de trabalho. A polícia passa a investigar o crime. Se quiser, como manda o manual de instruções mais elementar de qualquer trabalho policial, entrar no gabinete do senador à procura de provas, vai ficar sabendo que não pode — o Supremo não deixa.

É precisamente o que acaba de acontecer com o senador José Serra, acusado de corrupção passiva em São Paulo na época em que mandava no governo. A Polícia Federal, cumprindo sua obrigação de investigar um crime previsto no artigo 317 do Código Penal Brasileiro, precisava examinar o seu gabinete em busca de provas. O presidente do Senado, David Alcolumbre, pediu imediatamente que o Supremo proibisse a entrada dos policiais na sala de Serra. Foi atendido na hora por Antonio Toffoli. Isso aqui é o Brasil, estão dizendo os dois para a PF e para os 200 milhões de brasileiros — a polícia não pode investigar os crimes que a gente não deixa. Moral da história: se você for senador e quiser esconder um cadáver em seu gabinete, é só pedir uma liminar para o Toffoli.

A Justiça brasileira virou uma alucinação. Entre outros delírios, ela torna impossível saber se Serra é culpado ou não — se é legalmente proibido investigar o que ele fez, como é que se vai descobrir alguma coisa? A traficância exposta acima não é um surto passageiro de insânia safada — é descrita pelos gigantes do nosso atual pensamento “civilizado” como uma demonstração admirável da “democracia no Brasil”, e uma prova superior de que “as nossas instituições estão funcionando”. Não é nada disso, é claro. Uma criança de 10 anos de idade seria capaz de perceber que esse arranjo é uma óbvia evidência de “troca de chumbo”, como se dizia na Bolsa de Valores — você compra de mim, eu compro de você e as ações disparam. No caso, uns julgam os outros. Só o Senado pode julgar os crimes dos ministros do STF. Só os ministros do STF podem julgar os crimes dos senadores. Vai ser mais fácil o camelo da Bíblia passar pelo buraco de uma agulha do que senadores e magistrados se incomodarem algum dia.

É curioso. Quando a PF invade as casas de deputados de direita às 6 horas da manhã, apreende celulares e intima os parlamentares a prestar depoimento, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e seus companheiros de resistência democrática não dão um pio. Mas basta falar em roubalheira para o senador Alcolumbre se ligar em menos de três segundos. É o modelo 2020 da democracia brasileira.

Se você for senador e quiser esconder um cadáver em seu gabinete, é só pedir uma liminar para o mnistro do STF Antônio Toffoli

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24/07/2020

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"Para nós, há apenas o tentar. O resto não é da nossa conta". TS Eliot.
Escândalo incontido: Supremo censura bolsonaristas

Por Paulo Polzonoff Jr.
[24/07/2020] [15:35]
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Diante do que o STF está fazendo em nome de sua honra já manchada, o que falta para as receitas de bolo voltarem às capas dos jornais?| Foto: Reprodução/ Twitter
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Imagine se, em plena luz do dia, um grupo de soldados, a mando do presidente de um governo militar, mandasse invadir um jornal ou revista cheio de notícias sérias, mas também de celebridades, de piadas, de infindáveis bobagens cotidianas. Agora imagine se, uma vez lá dentro da empresa, os soldados tirassem à força os profissionais autores de notícias, piadas e bobagens com as quais o mandatário não concordasse.

Se isso acontecesse, como de fato aconteceu durante a Ditadura, as reações seriam as mais escandalosas possíveis. Um escândalo contido, meio que sussurrado, talvez expresso apenas com o olhar de quem teme a tortura. Mas ainda assim escândalo! Absurdo! Violação da Constituição! Violação dos Direitos Humanos!

Pois o cenário se repetiu na tarde de hoje (24). O jornal invadido não foi exatamente um jornal, e sim uma plataforma de microblogs, como dizem os mais velhos. A invasão tampouco foi uma invasão como aquela com o estardalhaço das botinas que se ouvia antigamente. Foi uma invasão limpinha, com mandado judicial – expediente que confere uma falsa aura de legitimidade a um ato autoritário vindo de quem mais deveria zelar pela Constituição. O Presidente? Não. Digo, também. Mas, neste caso, quem cometeu a ignomínia foi um ministro do Supremo Tribunal Federal.

Os atingidos são pessoas com as quais pode ser difícil se solidarizar. Elas vão desde o jornalista Allan do Santos até o empresário Luciano Hang, passando por Roberto Jefferson, aquele mesmo que foi condenado no Mensalão do camarada Lula, e pela militante Sarah Winter. São pessoas que professam verdades que, em geral, não condizem com as minhas, tanto pelo tom bem acima do que considero aceitável quanto pelo conteúdo questionável. Pode ser difícil se solidarizar com essas pessoas, mas é necessário.

O que está em jogo
O que está em jogo, aqui, não é só o conceito abstrato da liberdade de expressão. Pelo qual, aliás, já se lutou muito nesse país. Até ontem mesmo não estávamos todos ultrajados com a flagrante censura perpetrada contra a revista Crusoé? Voltando um pouquinho no tempo, me lembro de medida semelhante tomada contra o jornal O Estado de São Paulo para proteger a família Sarney. Isso sem falar nas peças canceladas, músicas retalhadas e até novelas proibidas pelos censores da Ditadura.

Ah, Paulo, você vai dizer e eu vou ouvir de braços cruzados, com toda a paciência do mundo. Ah, mas se eles não tivessem feito “coisa errada” o STF não teria feito uma coisa dessas. Se eles só ficassem publicando meme de gatinho, por exemplo. Você já viu alguém sofrer ação do STF por causa de meme de gatinho? E tem mais: você não pode ficar aí defendendo a liberdade de Allan dos Santos ou Sarah Winter. Pega mal. Eles são contra a democracia, sabia? Eles são fascistas! Eles...

Desculpe, mas vou ter de interrompê-lo aqui. Porque este tipo de argumento é de uma imoralidade que me fura os tímpanos. Não há coisa errada que justifique o atropelo da Constituição. Ora, no Brasil até latrocida tem direito à ampla defesa e ao devido processo legal. Quando o que vigora é a presunção da culpa e do dolo, o próximo passo é qual? Execução sumária dos inimigos?

Quanto a defender pessoas pelas quais não nutro qualquer simpatia (desculpe, Sarinha), o que está em jogo aqui não é este ou aquele nome ou pseudônimo. O que está em jogo aqui é a defesa de um princípio, o de que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

Receita de bolo
Do contrário, o que falta para termos, aqui mesmo na capa da Gazeta do Povo (ou no UOL, Estadão, Crusoé, Brasil Sem Medo, ou ainda no blog da Maricotinha e no do Ben10BR) receitas de bolo no lugar de críticas severas (quando e se merecidas) aos ministros do STF e aos chefes dos demais poderes?

Está na hora de substituir os novos slogans cheios de boas intenções progressistas, por algo mais antigo, cheirando a naftalina até, mas também mais sólido e mais enfático. Está na hora de abandonar as camisetas do Che e vestir o rosto nada atraente do provavelmente comunista Sérgio Porto, o famoso Stanislaw Ponte Preta.

Que, em plena ditadura (não esta, velada, a outra, explícita) cunhou a frase: “Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos”.

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Paulo Polzonoff Jr.
Paulo Polzonoff Jr. é jornalista, tradutor e escritor. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.
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