31/07/2024
Em janeiro de 2015, às 15hs, embarcava no Aeroporto Internacional de Belém, Kervely Vianthely, num voo direto para o Suriname. Com a cabeça cheia de sonhos, ela resolveu aceitar a proposta de trabalhar num outro país,como cabeleireira. Não sabia que, uma semana após sua chegada em Paramaribo, iniciaria o seu calvário.
Kervely cresceu no bairro do Marco e era popular em sua rua. Sempre saía como madrinha de bateria nos blocos de carnaval na periferia. Uma semana antes do dia Internacional de Enfrentamento ao Tráfico Humano, consegui o seu contato, e ela me contou a sua história e os dias em que passou "o pão que o diabo amassou "em terras Surinamesas.
"Um dia, um amigo meu me disse que estavam atrás de uma cabeleireira pra trabalhar num salão no Suriname com proposta de um bom dinheiro. Então, ele havia me indicado. E logo apareceu passaporte, passagens de avião e tudo. Acho que nem esse amigo que me indicou sabia o que era, na verdade. Então, eu fui e lá uma mulher me recebeu e, logo em seguida, insistiu em recolher meu passaporte e documentação, mas não dei.
Cheguei lá e, de fato, na primeira semana, atendi mesmo num salão de beleza, mas nos dias seguintes, fui levada para uma boate, por lá fiquei por 7 meses. Tinha que fazer programas para poder me alimentar. Já estava com uma dívida imensa pelo passaporte e passagens aéreas. Eu ainda tentei ir para o garimpo. Pelo que eu ouvia falar, era menos ruim que na cidade, mas não me permitiram.
Então, ali pelo 6⁰ mês, comecei a pensar como faria pra fugir, mesmo sendo arriscado. Quem trabalhava na boate era muito vigiado, até mesmo nas ligações para amigos ou familiares. Esses homens que faziam a segurança do estabelecimento também f**avam nas esquinas monitorando a gente.
Não dava pra confiar em ninguém. Foi quando fui fazendo amizade com um taxista que conheci no salão e, logo depois, começou frequentar a boate em que me apresentava. Fui falando de mim e adquirindo confiança, até que em uma madrugada ele topou me ajudar. Então fugi, já que meu passaporte estava comigo e a passagem de avião lá tem a validade de um ano.
Só fiz remarcar e voltei pro Brasil, muito abatida e abalada emocionalmente". Kervely Vianthely, mesmo passando por tudo isso em 2015, só agora veio entender que foi vítima de um crime até mesmo difícil de ser identif**ado: tráfico humano.
A capital do estado do Pará está na rota dessa prática criminosa. Pessoas são aliciadas com promessas de uma vida melhor no exterior e acabam caindo em uma armadilha que provoca sequelas para o resto da vida. Algumas vítimas conseguem se reestabelecer, já outras, carregam no corpo e na alma as marcas desses traumas.
Texto e fotos: Sandro Barbosa