28/01/2026
O martírio do cachorro Orelha comoveu o país e escancarou violências que não são exceção na nossa sociedade. A crueldade contra seres inocentes não pode dar lugar a reações viscerais que ignorem as raízes do problema ou reforcem outras injustiças. Se queremos justiça, é preciso debater que tipo de sociedade estamos construindo. Promover uma ética do cuidado multiespécie, com apoio real do Estado — para além de usos oportunistas e eleitoreiros — é fundamental para prevenir novas violências.
As investigações indicam que Orelha foi brutalmente atacado por ao menos quatro adolescentes, pertencentes a famílias ricas e influentes da elite de Florianópolis. Há indícios de que outro cão, Caramelo, também tenha sido vítima do mesmo grupo. Dois adolescentes foram alvo de busca, enquanto outros dois viajaram para a Disney, nos Estados Unidos.
A morte de Orelha gerou grande comoção e mobilização por justiça. Celebridades, moradores e protetores da causa animal passaram a cobrar providências das autoridades e a exigir que o caso não seja esquecido.
Defendemos o direito dos animais comunitários. Na ausência de um lar exclusivo, animais têm direito à proteção, ao cuidado e à dignidade, garantidos pela própria comunidade. Essas práticas, essenciais à sobrevivência de animais não domiciliados, ainda sofrem intensa perseguição no Brasil.
A base dessas e de outras violências está na hierarquização da vida:
humanos acima de não humanos; ricos acima de pobres; homens acima de mulheres; brancos acima de pessoas racializadas; pessoas com corpos considerados “típicos” acima de pessoas com deficiências.
Essa hierarquia autoriza o uso, o domínio e a exploração, e é mobilizada para decidir quem merece viver e quem deve morrer.
Nesse contexto, é urgente questionar a masculinidade fundada na violência e expor um sistema de justiça que opera de forma desigual. Que o martírio de um animal vulnerável nos lembre que há muitos outros Orelhas, de várias espécies, submetidos a crueldades ainda normalizadas.
Justiça por Orelha é educar para a construção de uma sociedade antiespecista, que respeita e protege a vida. 🌱✊🏽🐾