17/08/2023
Essa foi por pouco!
acordei de manhã e senti algo estranho no ar.
O celular não estava ligando; as luzes do quarto não estavam acendendo; na verdade não havia energia na casa. Lá fora, nenhuma buzina, nenhum escapamento barulhento de moto... nada!
Fui lavar o rosto, achando que tudo não se passava de um resto de sonho, mas não havia água nos encanamentos que vinham da rua; apenas a despressurizada que vinha da caixa d'água. Saí a rua e, atônito, vi meus vizinhos também na rua; também atônitos. Ninguém sabia dizer o que aconteceu, e cada um à sua maneira tentava explicar o que parecia inexplicável. Todas as máquinas haviam parado de funcionar! Seria o apocalipse; guerra nuclear, queda de torres de energia, invasão marciana, os comunistas chegaram...? Alguns, assustados, voltaram para dentro de suas casas e trancaram as portas. Outros, após perceberem que seus celulares não ligavam mais, saíram como zumbis pelas ruas, pois não sabiam como se comportarem na ausência das mídias sociais lhe dizendo o que fazer. Na geladeira, tudo se mantinha graças ao resto de gelo que ainda restava, mas que não tardaria em derreter. Não havia como ligar para a companhia de energia e reclamar; também não dava para ligar os carros, pois as baterias fritaram. O mundo moderno me parece ter sucumbido. As horas foram se passando e nada, nenhum sinal da volta da energia elétrica. Lá fora já podia se ouvir os estertores do desespero que já se fazia notar. Não tive coragem de sair e ver o que acontecia! A única energia pulsante era a de meu coração assustado. O que fazer se a energia não voltar?
Devo controlar o consumo de água da caixa, mas e quando acabar? E comida? Chega a noite. Com o por do sol, a escuridão toma conta, a não ser por pequenas luzes em meio a escuridão; provavelmente algumas velas. Provavelmente por medo, a maioria silencia mantêm as janelas e cortinas fechadas para não chamar a atenção. Os gemidos de medo e desespero se fazem ouvir junto a pedidos de calma e silêncio. E assim a escuridão persiste até que os primeiros raios de sol apontem no horizonte. Eu mal dormi a noite, por medo e apreensão. Tomo coragem e saio, sorrateiro e desconfiado, rumo ao mercado próximo a minha casa; parece que metade da cidade chegou antes e saquearam quase tudo. Me junto a turba, tentando encontrar comida ou água. Vejo neles o desespero de quem teme a morte que parece se aproximar a cada minuto. Consigo algumas bolachas, um pacote de arroz pela metade, pois estava rasgado, e encontro algumas garrafas de suco caídas em meio aos escombros do que até ontem era um mercado. Enfio tudo dentro de minha camisa e os seguro como posso e fujo pra casa. Entro e me tranco. Num lampejo de sobrevivência, contabilizo tudo o que possuo que possa servir de alimento. Com a chegada da noite os gritos, imprecações, lamentos e pedidos à Deus e ao demônio aumentam. Procuro algo com que possa me proteger. Tenho um machado, uma foice, várias facas, dois martelos e um pedaço de pau. Não há como dormir; estou atento e assustado. Na manhã do terceiro dia, ouço som do trote de cavalos. Olho por um vão entre o portão e o muro e vejo policiais gritando para que fiquemos em casa e não saíamos até que nos avisem que seja seguro sair. E não dizem mais nada. E não sabemos de nada. Cinco dias já se passaram e não vejo ninguém na rua, a não ser os zumbis digitais. A água começa a escacear, o desespero aumenta e tudo parece perdido quando, de repente, ouço gritos eufóricos vindo da rua de trás. Eu e mais uma pequena multidão saem das casas e correm para ver o que acontecia. Eram os vingadores que vieram nos salvar. Pulei tanto de alegria que caí da cama e derrubei o copo d'água que estava em cima do criado mudo. Preciso para de assistir filmes antes de dormir.
Prof. Reginaldo Furtado (O Observador!)