26/05/2026
FAI anuncia PDV e avalia contratação de empresa externa para reformular Medicina em meio a questionamentos internos
Instituição abre programa de desligamento voluntário para “otimizar recursos”, enquanto possível contratação da Hoper para reforma curricular do curso de Medicina gera críticas sobre gastos, competência interna e transparência
Por Marcio Barreto
Adamantina Notícias (SP), 26/05/2026
O Centro Universitário de Adamantina (FAI) vive uma nova onda de questionamentos internos após anunciar oficialmente seu Programa de Desligamento Voluntário (PDV) e, paralelamente, demonstrar interesse na possível contratação da empresa Hoper Educação para conduzir a reformulação curricular do curso de Medicina.
A coincidência entre os dois movimentos administrativos provocou forte repercussão entre professores, servidores e integrantes da comunidade acadêmica.
De um lado, a instituição afirma enfrentar necessidade de modernização administrativa, otimização de recursos humanos e contenção de despesas. Do outro, docentes questionam a intenção de terceirizar um trabalho acadêmico que, segundo eles, poderia ser realizado pelo próprio corpo técnico e pedagógico da universidade.
O PDV foi instituído pela Lei nº 4.508, de 21 de maio de 2026, e é voltado aos servidores aposentados vinculados à FAI sob regime CLT. O programa prevê incentivos financeiros de até R$ 30 mil para desligamento voluntário de funcionários administrativos e docentes.
A medida foi apresentada pela FAI como uma estratégia de reorganização administrativa. Porém, a possível contratação da empresa Hoper para reformular a grade curricular da Medicina abriu uma nova crise interna.
De acordo com informações obtidas pelo Adamantina Notícias, a Pró-Reitoria de Ensino teria recebido nesta terça-feira (26) representantes da empresa e apresentado os campi da instituição ao proprietário da Hoper Educação.
Professores relataram à reportagem que a gestão acadêmica teria informado que a empresa poderá ser contratada para reformular toda a estrutura curricular do curso de Medicina.
A situação gerou indignação dentro da própria universidade.
“Se a instituição está incentivando desligamentos para reduzir custos, como justificar gastar dinheiro público contratando uma empresa externa para fazer um trabalho que é obrigação da coordenação e dos próprios docentes?”, questionou um professor ouvido sob condição de anonimato.
O desconforto aumenta diante do atual cenário financeiro e acadêmico da FAI. Segundo relatos internos, o curso de Medicina iniciou 2026 com aproximadamente 35 alunos matriculados no primeiro ano e está agora com apenas 30 estudantes, número considerado muito abaixo das projeções históricas do curso.
Além disso, esta já seria a terceira reformulação curricular da graduação em pouco mais de uma década.
O primeiro projeto pedagógico do curso foi protocolado no Conselho Estadual de Educação (CEE) em 2014. A autorização oficial ocorreu em 25 de fevereiro de 2015, e as aulas da primeira turma começaram em agosto daquele ano.
A segunda reforma curricular ocorreu entre 2021 e 2022.
Agora, em 2026, a possível terceirização da nova reformulação passou a ser vista por parte do corpo docente como um “atestado institucional de incapacidade acadêmica”.
Segundo professores ouvidos pela reportagem, a própria FAI possui profissionais capacitados para executar a curricularização, adequar o curso às Diretrizes Curriculares Nacionais de 2025 e elaborar projetos pedagógicos alinhados às necessidades da regionalização da saúde.
“Existem docentes dentro da FAI que conhecem profundamente o curso, o SUS, a realidade regional da saúde e as exigências do MEC e do Conselho Estadual de Educação. Muitos já participaram da elaboração de projetos pedagógicos e de reformas curriculares de outros cursos de graduação”, afirmou uma fonte ligada à instituição.
Outro ponto que passou a gerar preocupação interna envolve possíveis interesses administrativos relacionados à distribuição de disciplinas e carga horária docente.
Há relatos de temor de que futuras alterações curriculares possam beneficiar setores específicos da gestão acadêmica ou criar mecanismos para manutenção de carga horária de integrantes da administração universitária após eventual saída de cargos comissionados.
As críticas também recaem sobre a aproximação da Hoper com a FAI nos últimos meses.
O proprietário da empresa esteve na instituição em fevereiro deste ano para ministrar a aula inaugural da nova turma de Medicina. Segundo relatos recebidos pela reportagem, a apresentação teria causado forte insatisfação entre parte dos docentes e estudantes.
Agora, o mesmo profissional surge como possível responsável pela reformulação curricular do curso.
Procurado pelo Adamantina Notícias, o ex-coordenador da Medicina da FAI, doutor Carlos Alberto dos Santos Filho, afirmou que já existia um planejamento interno para realização de uma ampla reforma curricular construída coletivamente pela comunidade acadêmica.
“Ano passado, nós fizemos um planejamento para uma reforma curricular com a participação de toda a comunidade acadêmica, que começaria no início deste ano. Cheguei a apresentar a todos os professores em reunião. Mas em seguida fui desligado. Pequenas alterações já haviam sido feitas para resolver algumas pendências, mas a reforma curricular efetiva seria iniciada agora em 2026”, declarou.
A fala amplia ainda mais os questionamentos sobre a necessidade de contratação externa.
Até o momento, a direção da FAI não apresentou oficialmente detalhes sobre eventual contrato com a Hoper Educação, valores envolvidos, existência de processo licitatório, critérios técnicos ou justificativas administrativas para a possível terceirização do serviço.
O Adamantina Notícias seguirá acompanhando o caso e buscará posicionamento oficial da Reitoria, da Pró-Reitoria de Ensino, da coordenação do curso de Medicina e da empresa Hoper Educação.