05/04/2023
*A celebração da Missa da Ceia do Senhor*
“A cruz de nosso Senhor Jesus Cristo deve ser a nossa glória: n’Ele está nossa vida e ressurreição; foi Ele que nos salvou e libertou” (cf. Gl 6,14).
*O que se deve preparar:*
- Todo o necessário para a celebração da Missa
- Paramentos brancos para o sacerdote, como para a Missa
- Turíbulo e naveta com incenso. Para a Transladação do Santíssimo Sacramento pode ser usado um segundo turíbulo
- Cruz processional
- Dois a seis castiçais com velas
- Sinetas
- Missal Romano
- Livro dos Evangelhos
- Cadeiras para os fiéis designados para o Lava-pés
- Jarro com água, bacia e toalhas para o rito do Lava-pés
- Gremial ou toalha para o sacerdote cingir-se
- O necessário para o sacerdote lavar as mãos
- Véu de âmbula (se houver)
- Véu umeral
- Genuflexório
- Velas para os ministros
- Quatro ou seis tochas
O uso do incenso é sempre facultativo na Missa (cf. Instrução Geral sobre o Missal Romano [IGMR], 3ª edição, nn. 276-277), sendo especificamente indicado pelo Cerimonial dos Bispos (n. 88) para essa celebração.
O altar seja ornado com flores, embora com certa moderação, de modo a não “antecipar” a alegria da Páscoa.
Antes dessa celebração o sacrário ou tabernáculo deve estar vazio (cf. Paschalis Sollemnitatis, n. 48; Missal Romano, p. 247), permanecendo aberto e com a lâmpada apagada. Se há reserva eucarística esta pode ser conservada na sacristia ou em outro lugar adequado fora da igreja, de forma digna (por exemplo, na casa paroquial).
Nessa Missa sejam consagradas hóstias suficientes para a Comunhão dos fiéis na própria celebração e no dia seguinte (Celebração da Paixão do Senhor).
Além disso, prepare-se o altar da reposição em local adequado da igreja, onde se conserva as hóstias para a Comunhão da Sexta-feira Santa. Esta capela da reposição deve contar com um sacrário fechado e convém ser ornada com flores e velas com a devida sobriedade (cf. Paschalis Sollemnitatis, n. 49; Cerimonial dos Bispos, n. 299). Essa capela nunca deve ter a forma de um “sepulcro” (cf. Paschalis Sollemnitatis, n. 55)
Se há igreja há uma capela do Santíssimo Sacramento separada do presbitério, prepara-se nessa mesma capela o altar da reposição.
*Acolhida dos Santos Óleos*
A Carta Circular Paschalis Sollemnitatis recomenda em seu n. 36 realizar “o acolhimento aos santos óleos (...) em cada uma das paróquias, antes da celebração da Missa Vespertina da Ceia do Senhor”. Os Óleos dos Catecúmenos, dos Enfermos e do Crisma, com efeito, são abençoados pelo Bispo Diocesano na Missa Crismal, que costuma ser celebrada na manhã da Quinta-feira Santa.
O Secretariado Nacional de Liturgia de Portugal publicou em 2019 uma proposta para esse “Rito da acolhida dos Santos Óleos”: os recipientes com os Óleos são entronizados na procissão de entrada (logo após a cruz). Após a saudação inicial, o sacerdote profere uma breve monição e se entoa uma aclamação para cada um dos Óleos, que são então depositados em uma mesa em um lugar adequado do presbitério.
*1. Ritos iniciais e Liturgia da Palavra*
A celebração inicia-se como de costume, com a procissão de entrada:
- Acólitos com o turíbulo e a naveta do incenso
- Acólito com a cruz ladeado por dois a seis acólitos com velas acesas
- Acólitos e demais ministros
- Diácono com o Livro dos Evangelhos, se houver
- Sacerdote, paramentado para a Missa (com a casula branca ou festiva).
Durante a procissão convém entoar um canto inspirado na antífona de entrada indicada no Missal (p. 247): “A cruz de nosso Senhor Jesus Cristo deve ser a nossa glória...” (cf. Gl 6,14). Com efeito, a Missa da Ceia do Senhor dá início ao 1º dia do Tríduo Pascal, o “Dia do Crucificado”, que vai do pôr-do-sol da Quinta-feira Santa ao pôr-do-sol da Sexta-feira Santa.
Após venerar e incensar o altar, como de costume, o sacerdote inicia a celebração com o sinal da cruz e a saudação presidencial, seguidos pelo Ato Penitencial.
Durante o Glória tocam-se os sinos da igreja. A partir de então os sinos não poderão ser tocados até o Glória da Vigília Pascal (cf. Paschalis Sollemnitatis, n. 50; Cerimonial dos Bispos, n. 300). Da mesma forma, durante esse intervalo de tempo os instrumentos musicais só podem ser utilizados para sustentar o canto.
Após o Glória, os ritos iniciais concluem-se com a oração do dia: “Ó Pai, estamos reunidos para a santa ceia...” (Missal Romano, p. 247).
Segue-se a *Liturgia da Palavra,* como de costume, até a homilia inclusive: Ex 12,1-8.11-14; Sl 115; 1Cor 11,23-26; Jo 13,1-15. Ao Evangelho realiza-se a procissão com o incenso e duas velas. Não se entoa, porém, o Aleluia (omitido até a Vigília Pascal), substituído pelo refrão indicado no Lecionário: “Glória a vós, ó Cristo, verbo de Deus”, unido ao versículo: “Eu vos dou este novo Mandamento...” (cf. Jo 13,34).
*2. Rito do Lava-pés*
Após a homilia, se for oportuno, tem início o rito do Lava-pés, que é sempre facultativo (cf. Paschalis Sollemnitatis, n. 51; Cerimonial dos Bispos, n. 301).
Até 2015 nesse rito participava um grupo de homens escolhidos. Através do Decreto In Missa in Cena Domini, de janeiro de 2016, a Congregação para o Culto Divino alterou essa normativa, indicando que sejam “pessoas escolhidas entre o povo de Deus”:
“Os pastores poderão escolher um pequeno grupo de fiéis que sejam representantes da variedade e da unidade de cada porção do povo de Deus. Tal grupo poderá ser constituído por homens e mulheres, e de modo conveniente, por jovens e idosos, pessoas sãs ou doentes, clero, consagrados ou leigos”.
Note-se que nem o Decreto nem os livros litúrgicos mencionam o número “doze”. Com efeito, o lava pés não é uma “encenação” da última Ceia, mas sim a “atualização” do mandamento do Senhor (Jo 13,12-15). Evite-se, portanto, todo elemento que dê a ideia de uma encenação.
Da mesma forma, não convém que as pessoas escolhidas para o Lava-pés permaneçam no presbitério desde o início da celebração: o Cerimonial dos Bispos indica que eles são “conduzidos pelos ministros para os assentos preparados em lugar adequado” após a homilia (n. 301), destacando assim que são “tirados” do meio da assembleia, representando todo o povo de Deus.
Para o lava-pés o sacerdote depõe a casula, deixando-a na cadeira ou entregando-a a um acólito para que a coloque em um lugar adequado, e cinge-se com um gremial ou toalha.
Aproxima-se então de cada uma das pessoas escolhidas e, auxiliado pelo diácono e pelos acólitos, derrama água em seus pés e os enxuga (ou, ao menos, lava e enxuga um pé). O gesto de o sacerdote beijar o pé do fiel não é indicado nos livros litúrgicos, embora tenha se tornado costume em muitos lugares.
Quanto aos acólitos que auxiliam o sacerdote, podem proceder da seguinte forma: do lado esquerdo, um acólito sustenta a bacia; do lado direito, o diácono ou um acólito sustenta a jarra de água; e, um pouco atrás, um ou dois acólitos ministram as toalhas.
Durante o rito do Lava-pés, cantam-se as antífonas propostas pelo Missal (pp. 248-249) ou outro canto adequado.
Terminado o rito, o sacerdote lava as mãos, depõe o gremial ou toalha e retoma a casula. Não se recita a profissão de fé (Creio). A Missa prossegue, portanto, com a Oração dos Fiéis (Preces).
*3. Liturgia Eucarística*
É muito conveniente organizar uma procissão dos fiéis que conduzem ao altar os dons do pão e do vinho a serem consagrados (isto é, patena e âmbulas com hóstias e galhetas com vinho e água), além de donativos para os pobres, enquanto canta-se o hino Ubi caritas (“Onde o amor e a caridade”; cf; Missal Romano, p. 249) ou outro canto adequado.
Na ação litúrgica, o sinal sempre deve “realizar aquilo que significa” (cf. Constituição Sacrosanctum Concilium, n. 6). Portanto, nessa procissão das oferendas devem ser entronizadas unicamente “oferendas”, e não meros “símbolos”. O que é levado nessa procissão é literalmente oferecido, doado, entregue.
A apresentação das oferendas faz-se como de costume, inclusive com o uso do incenso. Toma-se o Prefácio da Santíssima Eucaristia I: “Eucaristia, sacrifício e sacramento de Cristo” (Missal Romano, p. 439). Durante o canto do Sanctus (“Santo, Santo, Santo...”) faz-se a procissão com incenso e velas, mas não se tocam as sinetas após a Consagração.
Recomenda-se vivamente rezar a Oração Eucarística I, que possui partes próprias para esta Missa: “Em comunhão com toda a Igreja...”, “Recebei, ó Pai, com bondade, a oferenda...” e a própria narrativa da instituição: “Na noite em que ia ser entregue para padecer pela salvação de todos, isto é, hoje...” (Missal Romano, pp. 250-251).
*4. Transladação do Santíssimo Sacramento*
Após a Comunhão, permanece sobre o altar o corporal estendido e uma âmbula, coberta com o véu de âmbula (se houver), com as hóstias para a Comunhão do dia seguinte.
Convém deixar no altar apenas uma âmbula, que será transladada pelo sacerdote, destacando a “unidade”: o sacramento da Eucaristia é memorial do único sacrifício de Cristo. Para a transladação, com efeito, os livros litúrgicos sempre se referem à âmbula ou cibório no singular.
As demais âmbulas, se houver, podem ser transladadas para o sacrário da reposição em outro momento, após a celebração, ou então conservadas na sacristia ou outro lugar adequado.
Nunca se pode fazer a exposição com o ostensório (cf. Paschalis Sollemnitatis, n. 55), dada a sobriedade desse dia. A reserva da Eucaristia nessa celebração, com efeito, não visa a adoração, mas possui um caráter “prático”: “conservar o pão eucarístico para a comunhão que será distribuída na Sexta-feira da Paixão do Senhor” (ibid.).
Com efeito, se porventura na igreja não se celebra a Ação Litúrgica da Paixão do Senhor, não se faz a procissão e a reposição do Santíssimo Sacramento (cf. Paschalis Sollemnitatis, n. 54).
Recitada a Oração após a Comunhão, o sacerdote, diante do altar, impõe o incenso em um ou dois turíbulos, e, ajoelhado, toma um turíbulo e incensa o Santíssimo Sacramento.
Em seguida, recebe o véu umeral do acólito, genuflete e toma a âmbula nas mãos, cobertas com o véu. O Cerimonial não menciona o uso do pluvial para essa transladação: portanto, o sacerdote continua com a casula, colocando sobre ela o véu umeral. O uso da casula em todos os ritos do Tríduo Pascal (Missa da Ceia do Senhor, Celebração da Paixão, Vigília Pascal) indica a “unidade” das celebrações desses dias.
Forma-se então a procissão através da igreja até o altar da reposição:
- Acólito com a cruz ladeado pelos acólitos com velas acesas
- Acólitos e demais ministros, com velas acesas nas mãos
- Acólitos com o turíbulo e a naveta do incenso
- Sacerdote com o Santíssimo Sacramento, ladeado por quatro ou seis acólitos com tochas. Na ausência de tochas, podem utilizar-se quatro ou seis castiçais com velas.
Um acólito pode ainda conduzir a umbela sobre o sacerdote (não porém o pálio, que é próprio das procissões eucarísticas fora da igreja).
Durante a procissão canta-se o hino Pange lingua gloriósi (“Vamos todos louvar juntos”; Missal Romano, pp. 252-253) ou outro canto eucarístico.
Ao chegar ao altar da reposição, o sacerdote coloca a âmbula dentro do sacrário, depõe o véu umeral e ajoelha-se em um genuflexório preparado.
Estando todos ajoelhados, entoam-se as últimas duas estrofes do hino Pange língua, isto é, Tantum ergo Sacraméntum (“Tão sublime sacramento”; Missal Romano, p. 253), enquanto o sacerdote incensa o Santíssimo Sacramento.
Terminado o canto, o diácono ou o próprio sacerdote fecha a porta do sacrário. Após alguns momentos de oração silenciosa, o sacerdote e os ministros levantam-se, genufletem e retiram-se em silêncio.
*5. A desnudação dos altares e a “vigília eucarística”*
Em tempo oportuno, após a celebração, o altar é desnudado: retiram-se a toalha, as velas e as flores. As cruzes da igreja e as imagens dos santos são retiradas ou cobertas com um véu vermelho ou roxo, a não ser que já estejam cobertas desde o V Domingo da Quaresma.
As cruzes permanecerão cobertas até o final da Celebração da Paixão do Senhor; as imagens até o início da Vigília Pascal (cf. Paschalis Sollemnitatis, nn. 26.57; Cerimonial dos Bispos, n. 310).
Os fiéis sejam convidados a permanecer na igreja durante essa noite e durante a manhã do dia seguinte em oração diante do Santíssimo Sacramento. Após a meia-noite, porém, esta oração seja feita sem solenidade (cf. Paschalis Sollemnitatis, nn. 56; Cerimonial dos Bispos, n. 311).
Não se trata, com efeito, de uma “adoração eucarística”, mas sim de uma vigília em comunhão com o Senhor, que no Horto das Oliveiras exortou aos Apóstolos: “Vigiai e orai” (Mt 26,38.40-41 e paralelos).