01/09/2026
📍FUTURO DE ANGOLA | INVESTIMENTO NA INFÂNCIA | Há uma imagem que me persegue e que me desafia a não desistir.
As mães elas acordam ainda o sol não despontou. É o motor da economia familiar: vai para o escritório, vai para a zunga, vai para a lavra. Carrega o peso do dia e, nos braços, a maior das suas preocupações: o bebé. Onde deixá-lo para ir trabalhar? Este é o drama silencioso de milhões de mulheres angolanas, a pedra no sapato que nos impede de dar um passo maior rumo ao desenvolvimento.
Imaginemos uma Angola onde isso é passado. Não falamos de um simples depósito de crianças, mas de verdadeiros centros de lapidação, onde a formação da personalidade da criança começa nos primeiros cinco anos, a fase mais crucial da vida.
A nossa visão é clara: construir Creches e Centros Maternos-Infantis em todos os bairros de Angola, chegando a todos os 326 municípios. Locais seguros onde a mãe deixa o seu filho para receber estímulo, educação e carinho, enquanto ela garante o sustento da casa.
Mas não queremos construir simples lugares para “guardar crianças”. Queremos criar Centros de Desenvolvimento da Primeira Infância.
Espaços seguros, limpos e acessíveis, onde a criança possa receber alimentação adequada, cuidados básicos, estímulos cognitivos, actividades pedagógicas, acompanhamento do desenvolvimento e preparação para a vida escolar.
Um local de excelência onde a criança vai beneficiar:
CUIDADO
▫️alimentação;
▫️água;
▫️higiene;
▫️descanso;
▫️segurança.
DESENVOLVIMENTO
▪️linguagem;
▪️música;
▪️jogos;
▪️psicomotricidade;
▪️socialização;
▪️pré-leitura;
▪️pré-matemática.
SAÚDE
▫️vacinação articulada com os serviços existentes;
▫️acompanhamento do crescimento;
▫️identificação precoce de problemas;
▫️encaminhamento para unidades sanitárias.
PROTEÇÃO
▫️prevenção da violência;
▫️identificação de negligência;
▫️registo e acompanhamento.
FAMÍLIA
▪️educação parental;
▪️nutrição;
▪️higiene;
▪️aleitamento;
▪️desenvolvimento infantil.
COMO FAZER?
PRIMEIRO, Lançar o Mapa Nacional da Primeira Infância nos primeiros 100 dias de governação, ou seja, mapear cada município e bairro para saber quantas crianças precisam de atendimento.
SEGUNDO, aproveitar escolas, edifícios públicos e terrenos disponíveis, adaptando-os onde for mais económico e rápido, em vez de começar sempre pela construção de grandes edifícios.
TERCEIRO, criar modelos diferentes para diferentes realidades: centros maiores nos grandes bairros urbanos e unidades comunitárias de menor dimensão nas zonas rurais.
QUARTO, formar e empregar educadores, auxiliares, técnicos de saúde infantil, cozinheiras e outros profissionais locais.
QUINTO, estabelecer uma gestão partilhada entre o Estado, municípios, igrejas, organizações comunitárias e sector privado, com regras públicas de qualidade e fiscalização.
SEXTO, garantir que nenhuma família pobre fique excluída por não poder pagar.
SÉTIMO, aumentar substancialmente a cobertura da educação da primeira infância, partindo dos actuais 19% entre crianças de 3 a 5 anos.
OITAVO, medir anualmente não apenas quantas creches foram construídas, mas:
quantas crianças foram atendidas, quantas mães passaram a trabalhar, quanto custou cada criança e quais resultados as crianças obtiveram.
UM PROGRAMA QUE CRIA EMPREGO
Imagine-se a escala.
Centenas de centros.
Cada centro precisa de:
▫️educadoras;
▫️auxiliares;
▫️cozinheiras;
▫️pessoal de limpeza;
▫️pessoal administrativo;
▫️vigilantes;
▫️técnicos de saúde em regime articulado;
▫️supervisores.
Isso significa milhares de empregos, muitos deles para mulheres e jovens.
E há uma segunda oportunidade:
criar uma carreira profissional de educador e cuidador da primeira infância.
Formação curta, certificação, progressão profissional e avaliação permanente.
COMO FINANCIAR
Criaria um Fundo Nacional para a Primeira Infância, com financiamento plurianual protegido.
As fontes poderiam incluir:
1. Orçamento Geral do Estado.
2. Transferências para municípios.
3. Parcerias público-privadas.
4. Cooperação internacional.
5. Fundos de responsabilidade social empresarial.
6. Contribuições das empresas que beneficiem directamente do serviço.
7. Parcerias com organizações religiosas e comunitárias.
É VIÁVEL?
Sim.
Não precisamos inventar tudo.
O mundo já experimentou diferentes modelos.
A Coreia do Sul desenvolveu mecanismos de acesso universal à educação e cuidados na primeira infância. A Alemanha criou o direito legal a uma vaga de educação infantil a partir do primeiro ano de idade. A Suécia atribui às autoridades locais responsabilidades fortes na garantia de vagas. O Brasil está entre os países que reconhecem direitos de acesso à educação infantil desde a primeira infância. (OECD)
Não precisamos copiar nenhum país.
Precisamos aprender com os melhores e construir o nosso próprio modelo, adequado à realidade angolana.
E há uma razão económica para fazer isso.
Quando uma mãe consegue deixar o seu filho num lugar seguro, ela pode trabalhar.
▫️Pode vender.
▫️Pode estudar.
▫️Pode ir à lavra.
▫️Pode aceitar um emprego.
▫️Pode abrir um pequeno negócio.
Pode aumentar o rendimento da família.
É assim que uma política de cuidados à infância também se transforma numa política de combate à pobreza.
É possível. E é por isso que não podemos desistir.