30/03/2026
— Crónicas de um servidor público —
MILCA CAQUESSE: A LIDERANÇA QUE SE AFIRMA NA CONSTÂNCIA
Fecha-se a cortina do aclamado Março Mulher. E, como quase tudo o que é calendário, fecha-se depressa demais para aquilo que pretende celebrar. É nesse intervalo, entre o que foi dito e o que ainda f**a por dizer, que me ocorre uma inquietação serena: como traduzir em palavras aquilo que, na verdade, só a vida ensina?
Sou um homem moldado por uma mulher. Não o digo como frase feita. Digo-o porque foi no olhar atento da minha mãe, dona Inês Rodrigues, que aprendi o primeiro sentido de autoridade. Talvez por isso nunca me inquietou privar com ela. Inquieta-me, sim, não estar à altura da sua exigência.
Não me lembro do ano exacto em que a conheci. A memória, às vezes, guarda melhor as sensações do que as datas. Sei apenas que a conheci no espaço político, entre jovens militantes do Comité Provincial da JMPLA. Lembro-me de uma conversa nossa durante o CANFEU do Namibe, em 2014. Falámos sem pressa, como quem não precisa de impressionar. Não houve ali nenhuma necessidade de se impor, estava eu envolvido num diálogo com uma camarada atenciosa, focada no que lhe dizia.
Mais tarde, já em Luanda, a vida colocou-me no seu eixo de responsabilidades quando foi nomeada Administradora do Distrito do Sambizanga, num momento em que já eu exercia o cargo de Administrador do Bairro Ngola Kiluanje. O reencontro já não foi casual, trazia o peso do cargo e a vigilância própria de quem sabe que será observado.
Ao recebê-la no nosso bairro, confesso: havia em mim um nervosismo contido. Preparei tudo com rigor, mas sentia o peso silencioso da responsabilidade. Quando se aproximou, o tempo pareceu ajustar-se. Estendeu-me a mão. E, naquele instante, algo se alinhou. O seu gesto encontrou o meu com firmeza suficiente para dissipar qualquer hesitação. Não houve palavras de circunstância. O que ali se estabeleceu foi mais fundo: uma confiança inaugural, limpa, sem reservas.