30/03/2026
Em resposta a uma publicação do Prof. Venerando Aspra de Matos, pessoa de um espetro político oposto ao meu e com o devido respeito institucional e pessoal que lhe tenho, também na minha qualidade de líder local do CDS-PP (concelhia de Torres Vedras), dedico-lhe este texto.
Quanto ao autor do texto publicado pelo professor Venerando Aspra de Matos, como não o conheço deixo-lhe a minha indiferença.
Assim:
O caso do Padre Max, surge entre o terrorismo político, a instrumentalização partidária e falsas ligações.
O assassinato do padre Maximino de Sousa, conhecido como Padre Max, permanece como um dos episódios mais obscuros e politicamente carregados do período pós-25 de Abril em Portugal. Mais do que um crime isolado, tornou-se um símbolo da violência ideológica dos anos revolucionários, mas também da confusão, manipulação e disputas narrativas que marcaram esse tempo.
Foi um crime político no contexto do pós-revolução.
Na noite de 2 de abril de 1976, (fará esta semana 50 anos), uma bomba colocada no automóvel do Padre Max explodiu na Cumieira, em Vila Real, matando-o a ele e à estudante Maria de Lurdes, (procedimento também habitual à época bem usado pelas FP25 bem ligadas ao comunismo da época, recordemos).
O sacerdote, ligado a causas progressistas e próximo da UDP, era uma figura incómoda para setores conservadores da região, tendo sido alvo de ameaças e intimidação antes da sua morte.
O crime ocorreu num período particularmente instável da democracia portuguesa, marcado por confrontos ideológicos intensos entre esquerda e direita.
Nesse contexto, organizações clandestinas de extrema-direita, como o MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal), desenvolveram atividades violentas, incluindo atentados bombistas e ações de intimidação política, numa clara resposta às brigadas armadas de fiscalização, apoiadas pelo P*P.
Décadas depois, o processo judicial acabaria por reconhecer o caráter político do atentado, atribuindo ao MDLP responsabilidade enquanto organização que planeou e financiou o crime. No entanto, os autores materiais nunca foram condenados por falta de provas.
Ao longo dos anos, construiu-se, sobretudo em determinados discursos políticos e mediáticos, a ideia de uma ligação entre o assassinato e o CDS (Centro Democrático Social).
Essa associação baseou-se, em parte, no ambiente de hostilidade local ao Padre Max, onde alguns militantes ou simpatizantes de direita participaram em campanhas de intimidação.
Contudo, a existência de um envolvimento institucional ou orgânico do CDS no atentado nunca foi provada em tribunal. A investigação judicial, apesar de longa e complexa, não estabeleceu qualquer responsabilidade direta do partido enquanto estrutura política.
Mas uma mentira repetida, cinica, falsa e com origem na fação mais degradada do espetro político em Portugal, na época fez questão de a perpetuar.
Assim, a associação entre o crime e o CDS deve ser entendida sobretudo como um produto do clima político da época e de leituras posteriores, muitas vezes marcadas por disputas ideológicas.
O assassinato do Padre Max insere-se num ciclo mais amplo de violência política que caracterizou Portugal entre 1975 e 1976, onde as esquerdas se manifestaram largamente mostrando aquilo a que vinham e aquilo que eram e são. Grupos como o MDLP, ligados a setores da direita anti-comunista e organizados em parte a partir do estrangeiro, recorreram a atentados e ações clandestinas para travar o avanço da esquerda revolucionária. Ações que são claramente de repúdio, mas uma resposta à afronta comunista.
Este período, frequentemente designado como o “Verão Quente”, foi marcado por bombardeamentos de sedes partidárias, ataques a sindicatos e assassinatos políticos. A lógica era a de uma guerra não declarada, onde diferentes fações procuravam influenciar o rumo da jovem democracia portuguesa.
No meio desta história, surge frequentemente o nome de Diogo Pacheco de Amorim, associado ao MDLP durante a sua juventude.
Essa ligação tem sido usada, em debates contemporâneos, para insinuar uma responsabilidade direta no assassinato do Padre Max.
Contudo, importa distinguir factos de narrativas. Apesar da sua passagem por meios ligados à direita radical da época, Pacheco de Amorim nunca foi condenado por envolvimento no crime. Em termos judiciais, não existe prova que o ligue à execução ou planeamento do atentado, sendo frequentemente apontado como alvo de associações abusivas ou politicamente motivadas, numa tentativa desesperada de ter um rosto para uma narrativa, de criar um culpado, para ilibar o verdadeiro culpado que quiça não tem origem à esquerda, numa esquerda que disputava o eleitorado entre si.
A própria história do processo demonstra como o caso foi marcado por falhas investigativas, pressões políticas e dificuldades probatórias, o que contribuiu para a persistência de suspeitas difusas e acusações sem confirmação judicial.
O caso do Padre Max permanece aberto na memória coletiva portuguesa, não apenas pela brutalidade do crime, mas também pela incapacidade do sistema judicial em identificar e condenar os responsáveis diretos.
Ao longo das décadas, diferentes forças políticas procuraram apropriar-se do episódio para reforçar narrativas próprias, seja para denunciar a violência da extrema-direita, seja para contestar alegadas manipulações e falsas imputações.
Entre a verdade judicial, limitada mas factual, e as leituras políticas muitas vezes ampliadas, subsiste uma zona cinzenta onde a história e a memória se cruzam. O assassinato do Padre Max continua, assim, a ser menos um caso encerrado e mais um espelho das tensões que marcaram o nascimento da democracia portuguesa.
Herculano Raposo