27/10/2025
A tertúlia de 25 de outubro de 2025 realizou -se em casa da nossa convidada e também tertúliana, Maria Fernanda Pires Pereira, nascida em 08-02-1962, que pertence à família "Fiel".
O seu avô paterno, António Augusto, foi uma criança entregue na "roda dos expostos" juntamente com um enxoval e um bilhete com o seu nome. Da "roda" de Penafiel foi acolhido pela família do Dr Moreira em Jugueiros, onde cresceu e trabalhou como empregado. E assim surge o nome "Fiel".
O seu pai José Augusto Pereira trabalhava como afinador de teares na fábrica de tecidos de Armil e nos tempos livres negociava madeira. Na hora de almoço levavam -lhe a pé a refeição quente. Ele era um "bon vivant". Hoje, temos uma rua em Jugueiros em sua homenagem: rua Zé do Fiel.
A mãe Aurora Pires era costureira de profissão enquanto viveram em Travassós.
Quando se mudaram para a Perlonga em 1958, a sua mãe aprendeu proativamente a escrever, pois na nova casa, abriram no piso inferior uma "venda com tasco", onde vendiam mantimentos, artigos do dia-a-dia, serviam bebidas, refeições simples e era necessário saber escrever para poder apontar o nome dos fregueses.
Dessa casa tem recordação da retrete de madeira, que os irmãos emigrantes em França, com uma visão mais modernizada, transformaram com restos de diferentes azulejos. Tiveram direito a sanita e a banheira. Para os banhos, a água era aquecida numa panela de ferro de 3 pernas na lareira. Por vezes, a água do banho continha alguma caruma mas mesmo assim já era uma grande evolução.
Era a ajudar a mãe na "venda da Rorinha do Fiel" que passava os seus dias. Gostava particularmente da época da pesca. A venda ficava mais animada com o entra e sai de pescadores. Também ajudava com alguns afazeres agrícolas e vendia a semente de erva na feira de Fafe, para onde se deslocavam a pé.
A mãe fez questão que estudasse. Achava que ela não conseguiria desenvolver trabalhos mais duros devido à sua aparente fragilidade.
Fruto de uma gestação tardia (a mãe tinha 46 anos quando a Fernanda nasceu), foi batizada apenas com uma semana de vida, por temerem que não sobrevivesse. Acrescia ainda o facto de já ter falecido um irmão seu de apenas 4 anos.
Frequentou a escola primária do Assento em Jugueiros, na mesma turma que os rapazes, com a professora Teresa Monteiro. Dizia muitos palavrões, que aprendeu pela convivência com os fregueses na venda dos pais. No exame da 4°classe era necessário apresentar um trabalho de lavores femininos. Como nunca teve muito jeito para estas tarefas, alguém lhe fez o trabalho para expor.
Mais tarde, seguia na carreira da "Ferreira das Neves" até Felgueiras, onde estudou no ciclo até ao quinto ano (atual 9°). Como não havia liceu em Felgueiras, deu continuidade aos seus estudos em Guimarães.
Sentiu um grande impacto em passar de um meio rural para um meio urbano. As diferenças eram muitas, desde o estilo de vida, a forma de vestir e de falar, o acesso a serviços, etc.
Ponderou ser enfermeira mas o destino havia traçado outra rota.
Começou a trabalhar nos escritórios da antiga Lasac por volta de 1983 e logo depois passou para a área de exportação. Começou a frequentar um curso de francês na Aliança Francesa. Na escola já havia aprendido inglês.
Como não havia transporte público, tirou carta e comprou uma motorizada. Também não existiam opções de alimentação e como tal precisava levar marmita.
As viagens eram repletas de peripécias. Quando chovia tinha de fechar a viseira do capacete, mas depois ficava embaciado e não tinha visibilidade suficiente. Se o abrisse ficava toda molhada.
Colocava a cesta de almoço na traseira da motorizada e como as estradas estavam em tão mau estado, por vezes perdia pelo caminho parte do farnel, que saltava fora da cesta com os solavancos sentidos.
Entretanto conseguiu comprar um carro usado muito velho. Um Mini Cooper. Mas, não foi por isso que as peripécias terminaram. Cada vez que precisava ligar o carro, tinha de o empurrar.
Depois, com a ajuda financeira dos irmãos, comprou um carro que já não era azarado.
Ao fim de 5 anos mudou -se para a Codizo onde trabalhou durante 21 anos. Aqui nasceram amizades que ainda hoje se mantêm.
Passou pela Martiape, por um agente, e agora trabalha numa empresa holandesa.
O seu trabalho incluía viajar. A sua primeira viagem foi a Nova York. Na época, aquela função era predominantemente desempenhada por homens pois implicava ir para um país diferente com uma língua diferente, sem horários, sozinhos e a lidar com várias pessoas diferentes.
Contudo, não se sentia intimidada por isso. Aliás, sempre teve uma forma de estar, avançada para a sua época.
Percorreu as feiras de exposições em diversos países, desde França, Dubai, Milão, Las Vegas, Madrid, Tókio, Canadá,etc.
Em momento algum se sentiu desrespeitada pelos seus pares.
Durante essas viagens surgiram alguns imprevistos. Usavam o mapa em papel como guia e nem sempre corria bem.
Estamos a falar de uma mulher à frente do seu tempo. Usava calças desde os 9 anos de idade, estudou, andou de mota, teve um carro e uma profissão fora do tradicional.
A nossa anfitriã recordou-nos ainda de um período controverso em Jugueiros, que envolvia política e religião.
Tanto o padre Mário da Lixa como o padre Augusto de Jugueiros (amigos) eram contra o regime e contra a guerra. O padre Mário que esteve na guerra do Ultramar foi preso pela PIDE em 1970. Eram bastante revolucionários. Apelavam nas missas para que os homens não fossem para a guerra.
O padre Augusto era progressista. Fez em 1969 um referendo para decidir se deveria ou não existir a visita pascal. Durante 7 anos não se realizou. O padre considerava que era uma medida apenas para angariar dinheiro, sem qualquer fundamento.
Mesmo após o 25 de abril, continuava a existir uma pequena minoria que não aceitava a liberdade.
O padre Augusto foi transferido para Lustosa em 1975 e alguns membros dessa minoria foram até à sua nova paróquia para o insultar e caluniar em frente aos atuais paroquianos.
Como resposta, foi espalhado pela freguesia, uma carta de Lustosa dirigida ao "povo de Jugueiros".
Para substituir o padre Augusto, chegou o padre José Carlos. Era um apaziguador que chegou num momento de grande tensão entre os paroquianos. Mesmo assim, chegou a ser sequestrado.
Nessa época, Jugueiros foi notícia em diversos jornais, tal eram os incidentes causados pela minoria que detinha poder.
A procissão da Santa Águeda, um evento de grande notoriedade na época, chegou a sair sem padres.
A nossa tertúlia terminou com um delicioso lanche, acompanhado de muitas gargalhadas e "cheese".
Participaram nesta tertúlia, para além da nossa convidada: Miguel Sousa e a filha Sara, Ernesto Sampaio, Libânia Moura, Pascal Pereira, Piedade Torres e Cátia Marinho.