06/10/2017
ANGOLA||POLÍTICA
Legado JES: Um Presidente desconhecido - Alexandra Simeão
Fonte: Correio Angolense/Club K
05 Outubro 2017
Luanda - ”No fim de um mandato de 38 anos, José Eduardo Dos Santos continua a ser um mistério para muitos angolanos. Mistério pelo facto de nunca ter sido conhecida a sua opinião sobre inúmeros assuntos. Durante todos estes anos nunca vimos o Presidente José Eduardo dos Santos dar uma entrevista ou participar num programa nas Rádios ou Televisões angolanas. Nunca o ouvimos falar livremente sobre Angola, as suas expectativas, os seus sonhos, a sua visão enquanto líder, dentro de casa e sem nenhum marketing. As pessoas queriam conhecê-lo, queriam escutar palavras ditas com a parte de dentro do coração em vez dos discursos entediantes e vazios de sentido porque nunca falavam para o povo e que apenas aconteciam uma ou duas vezes por ano. Mas nunca o vimos misturado com o povo.
Nunca o sentimos perto da Universidade, nem dos Escritores. Nunca era esperada a sua presença em acontecimentos menores. Nunca foi de férias para nenhuma província. Não sabemos qual é a sua cor preferida. Nunca conhecemos nenhuma das suas memórias da infância ou qual foi o livro que o marcou para a vida.
Chegou ao poder tão jovem e tenho a certeza que trazia consigo ideais e sonhos para concretizar. Teve a oportunidade de ter crescido politicamente perto de pessoas enormes que tinham por este país uma paixão de que não duvido, que deram tudo o que tinham a uma luta clandestina que tinha por missão construir liberdade, igualdade e felicidade para um povo, nós, que não tínhamos país. Mas dos bons exemplos não se fez luz. Não nasceu grandeza na liderança. Perdeu-se nos corredores da intriga palaciana, na gestão e fortalecimento do seu poder que se tornou a única prioridade.
Foi criado à sua volta um véu de intangibilidade que, pela dimensão, se tornou épico. As vénias do medo e das oportunidades eram levadas até à exaustão e mantidas para que não restassem dúvidas. Bastava pronunciar o seu nome e abriam-se portas, encurralavam-se indesejados, garantiam-se posições e ganhavam-se negócios.
Durante 38 anos foi incontornável o tamanho do poder concreto que emanava de si. Hoje olho para traz e apenas lamento as oportunidades e as pessoas perdidas. Lamento que os recursos não tivessem tido em conta o que de facto era essencial: as pessoas. A História deu-nos numerosos exemplos de que toda a governação que não tenha as pessoas como o seu principal objectivo é levada, inevitavelmente, ao fracasso. Em 15 anos de paz houve tempo suficiente para materializar um país para todos. Houve tempo e pessoas dispostas a concretizar este sonho, mas havia gente que tinha projectado um outro país incapaz de se erguer e ser um exemplo e isto foi a causa do descalabro. Nunca foi assumida qualquer culpa pessoal pelo estado deprimente e bipolar da economia, pela falência do sistema de saúde ou pela falta de sentido do mísero orçamento da Educação e da Agricultura. A culpa era sempre alheia, assente em demissões constantes, em acusações e humilhações públicas apesar do maestro ser sempre o mesmo.
38 anos são mais de 13.800 dias de governação que se tivesse sido feita com bondade e amor ao próximo teria sido capaz de fazer o milagre da multiplicação. Mas hoje, olhando para traz, quero acreditar que o Presidente deu apenas o que tinha para dar. Foi um Presidente incapaz de escutar e se comover com o choro das mães que perderam os seus filhos em tempo de paz, de se sentir tocado pela pobreza que magoa a maioria das famílias angolanas. Foi um Presidente que nunca foi capaz de concretizar o sonho de um país para todos porque apenas convidou os familiares e amigos para a mesa do banquete e o país que construiu nunca incluiu os mais pobres que tinham que agradecer a cada chafariz que lhes era oferecido.
A História terá que ser capaz de ler em todas as entrelinhas para encontrar fraternidade na sua acção governativa. A liderança exige que se olhe para o outro com amor e bondade. Exige que se opte sempre por aquilo que for melhor para a maioria das pessoas e que com isso elas construam felicidade e progresso social. Foi um Presidente ausente nas calamidades, nas epidemias, na seca e na abundância e por isso apenas cumpriu a Pátria na qualidade de Arquitecto da Paz.
Que na sua nova missão, ao olhar para traz, consiga perceber quantas oportunidades ainda se manifestam capazes de corrigir o que sempre esteve e continua mal. Que consiga olhar para o povo e para a pátria com amor e com isso reconstrua o seu partido para que este se consiga renovar tendo como alicerce a ética e a boa governação. Que consiga dar um novo sentido a este projecto que um dia foi grandioso mas que hoje perdeu a identidade, a verdade, pessoas boas e competentes e o rumo. Desejo-lhe longa vida para que possa um dia ver Angola sem Fome, sem Mortalidade infantil e sem Dor."