MAR - Movimento Anti-Racista

MAR - Movimento Anti-Racista Por um Movimento Anti-Racista

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24/05/2026

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Neste dia, 24 de maio de 2021, foram encontrados os restos mortais de 215 crianças indígenas no Canadá, nos terrenos que anteriormente pertenciam à escola residencial de Kamloops.

As escolas residenciais para crianças indígenas tinham sido criadas pelo Estado no Canadá, com a colaboração da Igreja Católica, desde a segunda metade do século XIX, com o objetivo de reeducar as crianças, assimilá-las forçosamente à cultura canadiana e purgar-las de qualquer vestígio da sua cultura indígena, o que constituiu um ato de genocídio cultural.

As crianças nestas escolas, que continuaram em funcionamento até 1997, eram vítimas de abusos de violência física e sexual, purgadas dos seus nomes e vestimentos indígenas e proibidas de falar a sua língua indígena, além de serem obrigadas a realizar trabalho forçado.

Muitas desenvolveram, ao longo dos anos, traumas psicológicos e outros problemas mentais que as levaram ao suicídio. As escolas ao longo dos séculos XIX e XX possuíam ainda condições sanitárias miseráveis, com falta de sistemas de esgotos e canalização, falta de ventilação e iluminação, conduzindo muitas vezes ao surgimento e à propagação de surtos de doenças como tuberculose e cólera, levando à morte de milhares de crianças, que eram simplesmente enterradas nos terrenos das escolas, levando à criação de valas comuns como a que foi encontrada em 2021. Mortes por malnutrição também eram comuns, assim como o uso das crianças como cobaias para experiências médicas.

Estima-se que cerca de 150 mil crianças frequentaram estas escolas e que o número de mortes, devido à falta de registos, situa-se entre 3200 e mais de 30 mil. Tudo isto foi realizado sob a supervisão do Estado canadiano e muitas das escolas foram geridas pela Igreja Católica, que até hoje não emitiu qualquer pedido de desculpas.

O Estado canadiano também continua em disputas legais com muitas das famílias indígenas afetadas, apesar de reconhecer as atrocidades cometidas como resultado dos territórios indígenas que foram roubados no seu passado colonialista.

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24/05/2026

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Em 2 de maio de 1963, mais de 1.000 crianças negras saíram às ruas de Birmingham — e, no dia seguinte, o mundo inteiro foi forçado a testemunhar o verdadeiro rosto da segregação quando confrontada por uma coragem que não podia ser ignorada nem negociada.

A cidade respondeu com prisões tão rápidas e tão massivas que as cadeias começaram a encher quase de imediato. Mas nenhuma cela foi capaz de conter o que acontecia do lado de fora: onda após onda de jovens escolhendo a dignidade em vez do silêncio.

No dia seguinte, Birmingham deixou de ser apenas uma cidade em crise e tornou-se um teste moral diante do mundo. Mangueiras de água a alta pressão. Cães policiais. Crianças a correr, a cair, a levantar-se outra vez. Imagens que atravessaram fronteiras e expuseram, sem filtro, o que era a “ordem” da segregação.

O que precisa ser entendido antes de tudo é isto: não eram crianças perdidas no acaso da história. Eram jovens negros já moldados por um sistema que determinava onde podiam estudar, caminhar, sentar e sonhar — e que decidiram que esses limites já não eram aceitáveis.

A campanha de Birmingham não foi um episódio espontâneo. Foi uma estratégia de resistência organizada, pensada para quebrar um dos sistemas de segregação mais rígidos dos Estados Unidos.

Os adultos sabiam o custo de protestar. Um pai ou uma mãe negros podiam perder o emprego, a casa, ou sofrer represálias apenas por levantar a voz em público. Foi essa realidade dura que abriu espaço para uma decisão histórica: colocar os jovens no centro da luta.

Antes de marcharem, as crianças foram treinadas na não violência. Reuniam-se na Igreja Batista da 16th Street, absorvendo não apenas instruções, mas uma forma de permanecer firme diante da humilhação, dos insultos e das prisões sem abandonar a disciplina do movimento.

E então veio o dia 2 de maio — um dia que os organizadores chamaram de “Dia D”. Em pequenos grupos, os estudantes deixaram as salas de aula, reuniram-se na igreja e avançaram pelas ruas cantando e rezando, enfrentando uma cidade que durante décadas se sustentou no silêncio negro.

Cada grupo que era preso abria caminho para outro. Esse ciclo constante transformou-se numa forma de testemunho vivo: Birmingham podia prender corpos, mas não conseguia interromper a convicção que saía daquela igreja.

A resposta da polícia revelou o desespero da cidade e a determinação dos jovens. Centenas foram levados em viaturas, autocarros e qualquer espaço improvisado que pudesse servir como prisão.

E ainda assim, as filas de manifestantes continuavam a formar-se.

Há um tipo de poder que nasce quando crianças se recusam a desaparecer sob ordens. Birmingham esperava obediência. Recebeu uma geração que entendeu que a dignidade vale mais do que o conforto.

No dia seguinte, a cidade ultrapassou as prisões em massa e entrou numa resposta que marcaria para sempre a sua história. Com as cadeias a transbordar, a polícia recorreu a mangueiras de alta pressão e cães de ataque — e as imagens desse dia correram o mundo.

Essas fotografias mudaram tudo. O que as famílias negras em Birmingham já sabiam na pele tornou-se impossível de ignorar, porque agora o mundo inteiro via uma estrutura inteira a defender-se de crianças desarmadas, armadas apenas com disciplina, fé e determinação.

Elas não eram símbolos abstratos. Eram filhos e filhas, estudantes, membros de coro, jovens com tarefas escolares, uniformes e pais nervosos observando da margem da história enquanto os seus filhos caminhavam em direção ao perigo.

Algumas fontes indicam que crianças de apenas seis anos participaram, enquanto muitas outras eram adolescentes. Essa amplitude de idades torna o episódio ainda mais devastador — e ainda mais poderoso.

E mesmo assim, o movimento não se quebrou. As marchas continuaram. As crianças continuaram a voltar. A cidade continuou a resistir — mas já não controlava a narrativa.

O que aconteceu em Birmingham não ficou em Birmingham. Tornou-se uma acusação moral diante do mundo.

Foi por isso que a “Cruzada das Crianças” mudou o rumo da história. Ela aumentou a pressão sobre o governo federal e contribuiu para que os Estados Unidos fossem forçados a encarar, com mais urgência, a questão dos direitos civis.

Dentro da própria cidade, as manifestações ajudaram a abrir caminho para acordos que levaram à dessegregação de espaços públicos e à libertação de muitos dos presos.

O que faz essa história permanecer não é apenas a violência enfrentada. É o facto de que, mesmo diante dela, aquelas crianças continuaram a andar, a cantar e a acreditar que os seus corpos pequenos podiam mover um país inteiro.

E isso obriga-nos a repensar a forma como ensinamos a história. Porque, demasiadas vezes, as crianças aparecem apenas como fundo dos acontecimentos — quando, na verdade, em Birmingham, elas foram o coração da mudança.

As crianças de Birmingham não esperaram pela idade adulta para serem parte da história.

Elas já estavam a escrevê-la.

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24/05/2026

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«A PIDE não detinha para investigar ou abrir um processo. Prendia para torturar e matar, implantando um clima de terror para subjugar a população. Em Moçambique, as pessoas sabiam que se fossem parar à PIDE provavelmente não sairiam de lá vivas.»

Em entrevista ao «Expresso», Maria José Oliveira, autora de «Casa dos Mortos», conta como «os agentes da polícia política atuaram como ‘psicopatas à solta’».

Leia a entrevista completa aqui: https://expresso.pt/semanario/ideias/2026-05-21-a-violencia-colonial-ainda-e-um-tabu-em-portugal-483379d9

«Casa dos Mortos» está disponível nas livrarias e em https://tintadachina.pt/produto/casa-dos-mortos/

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23/05/2026

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Em 16 de junho de 1944, George Stinney Jr. entrou na câmara de execução da Penitenciária Estadual da Carolina do Sul. Ele tinha apenas 14 anos e carregava uma Bíblia debaixo do braço.

Pesando apenas 43 quilos, o menino vestia um macacão listrado largo demais para seu corpo. Foi amarrado em uma cadeira elétrica feita para adultos. O eletricista do estado teve dificuldade para ajustar os eletrodos em suas pernas finas. Uma máscara grande demais cobriu seu rosto, e ele precisou sentar sobre um livro para alcançar a altura correta.

Antes de ligar a corrente, um oficial perguntou se ele tinha alguma última palavra.
Stinney respondeu baixinho:
“Não, senhor.”

O médico da prisão insistiu:
“Você não quer dizer nada sobre o que fez?”
Mais uma vez, o garoto respondeu:
“Não, senhor.”

George Stinney Jr. negou o crime até o último segundo de sua vida.

Quando os 2.400 volts atravessaram seu corpo, a máscara escorregou. Seus olhos se abriram, cheios de lágrimas, e saliva escorreu de sua boca diante de todas as testemunhas. Depois de mais dois choques, estava morto.

Em apenas **83 dias**, ele foi preso, julgado, condenado e executado pelo Estado da Carolina do Sul.

Em 2014, 70 anos depois, sua condenação foi anulada. A justiça reconheceu que o processo foi profundamente irregular. Seus irmãos afirmaram que a confissão foi obtida sob coação e que George tinha um álibi: no momento dos assassinatos, ele estava com a irmã Aime, cuidando da vaca da família.

Um homem chamado Wilford “Johnny” Hunter, que dividiu a cela com ele, contou que Stinney repetia chorando:
“Johnny, eu não fiz isso. Eu não matei aquelas meninas. Por que eles vão me matar por algo que eu não fiz?”

George Stinney Jr. foi a pessoa mais jovem a ser executada nos Estados Unidos no século XX.

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18/05/2026

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Na primavera de 1945, numa sala abafada do Senado do território do Alasca, uma mulher tlingit largou o tricô, levantou-se com calma — e mudou o destino dos direitos civis nos Estados Unidos. Dezessete anos antes de o resto do país finalmente compreender o que ela já sabia sobre igualdade.

Seu nome era Elizabeth Peratrovich, Ḵaax̲gal.aat em tlingit.

Naquele tempo, o Alasca era coberto por placas que feriam como lâminas:

“Proibida a entrada de nativos.”
“Só atendemos brancos.”
“Proibidos cães e nativos.”

Não era o sul segregado. Era o norte — onde homens indígenas iam para a guerra combater o nazismo, enquanto suas famílias eram tratadas como intrusas em sua própria terra.

Elizabeth cresceu sob essas humilhações.

Nascida em 1911, passou a vida enfrentando o preconceito ao lado do marido, Roy. Não havia multidões marchando com eles, apenas persistência: cartas escrevendo até tarde, reuniões em que mal eram ouvidos, conversas com legisladores enquanto seguravam no bolso as últimas moedas para pagar um café.

Em 1941, escreveram ao governador Ernest Gruening denunciando a segregação como “profundamente não americana”. Ele concordou e ajudou a preparar um projeto de lei antidiscriminação. Mas, em 1943, os parlamentares rejeitaram a proposta.

Mesmo assim, Elizabeth não desistiu.

Em 5 de fevereiro de 1945, o projeto voltou ao Senado — e os opositores vieram com tudo. O senador Allen Shattuck olhou para a galeria onde estavam nativos e disparou:

“Quem são essas pessoas, recém-saídas da selvageria, que querem se sentar conosco, brancos, com cinco mil anos de civilização?”

O silêncio foi sufocante.

Elizabeth, aos 33 anos, presidente da Alaska Native Sisterhood, tricotava quando ouviu aquilo. Guardou as agulhas, caminhou até o microfone e, com uma serenidade que desmontava qualquer arrogância, respondeu:

“Eu não esperava que fosse necessário que eu — alguém supostamente recém-saído da selvageria — lembrasse a cavalheiros com cinco mil anos de civilização sobre o nosso Bill of Rights.”

A sala explodiu em aplausos.

Mas ela continuou.

Falou dos filhos e de como era devastador explicar por que eles eram barrados em portas que deveriam ser de todos. Falou dos soldados indígenas que voltavam da guerra e encontravam, em casa, as mesmas placas racistas que juraram combater no exterior.

E então acertou o coração do debate:

“Vocês eliminaram furtos e assassinatos simplesmente aprovando leis contra eles? Nenhuma lei extinguirá um crime por completo. Mas vocês podem, ao menos, declarar ao mundo que reconhecem o mal da situação atual.”

Depois disso, o Senado votou: 11 a 5. Vitória.

Em 16 de fevereiro de 1945, o governador Gruening assinou o Alaska Equal Rights Act — a primeira lei antidiscriminação do século XX em qualquer estado ou território americano. Quase vinte anos antes da Lei dos Direitos Civis de 1964.

Elizabeth Peratrovich morreu jovem demais, aos 47 anos, em 1958, sem ver o Alasca virar estado. Não viu as homenagens, o Dia de Elizabeth Peratrovich, nem sua imagem estampada numa moeda americana em 2020. Ela só viu o que precisava ser consertado — e fez.

Não com discursos grandiosos, mas com coragem cotidiana.

Hoje, quando qualquer pessoa entra livremente em uma loja, restaurante ou teatro no Alasca, o faz pelas portas que ela abriu.

Naquele dia, ela apenas largou o tricô.
Se levantou.
E mudou tudo.

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