24/03/2025
Por sugestão / proposta do Deputado Municipal do Movimento de Cidadãos Castelo Branco Merece Mais, recebeu no dia 30 de março (Dia da Cidade), na cerimónia de comemoração 254º Aniversário de Elevação de Castelo Branco a Cidade, a medalha de ouro da Cidade a título póstumo a família do albicastrense Francisco Vieira de Almeida (1888-1962), insigne académico (catedrático de Filosofia da Faculdade de Letras – Seção de Filosofia da Universidade de Lisboa), lutador pela liberdade e democracia no contexto adverso do Estado Novo. Esta homenagem só agora se materializou, apesar de termos insistido esse reconhecimento nas cerimónias do Dia da Cidade de 2022, 2023 e 2024, pelo percurso e contributos do filósofo albicastrense, que foi um homem dos sete ofícios intelectuais: filósofo, lógico, poeta, romancista, ensaísta, esteta, crítico literário e tradutor de obras.
Vieira de Almeida sempre se declarou monárquico por convicção, na esteira de Pequito Rebelo e Hipólito Raposo, este último seu conterrâneo de São Vicente da Beira (Castelo Branco) no periódico ‘Nação Portuguesa’ de Alberto Monsaraz (espécie de revista de Filosofia Política que tinha o lema ‘Pela lei e pela Grei’, dirigida inicialmente por A. Sardinha e, depois, por Ma¬nuel Múrias). A aproximação entre monárquicos e integralistas leva-o a publicar no nº 6 daquela revista (dezembro, 1914) o artigo ‘A Fórmula Po¬lítica’, onde cita Alexandro Herculano e se define como: ‘não-integralista’, ‘não-hegeliano’, ‘não-positivista’ e ‘não-kantista’. Nos debates, nas reuniões nos círculos de intelectuais com os ami¬gos (tertúlias) ou nas suas conferências assistiam muita gente interessada na profundeza das suas análises críticas (hermenêutica critica e analógica), de tal forma que galvanizava o público assistente e, quando falava mal se ‘ouvia as moscas’. Um bom exemplo desta atratividade do público pelo filósofo albicastrense eram as sessões no Cinema Tivoli, às terças-feiras à tarde – designadas por JUBA (Jardim Universitário de Belas Artes). Este albicastrense foi um modelo de cidadão interventivo, um dos grandes intelectuais portugueses e um ser humano extraordinário.
Nos finais da década de 50, Mário Soares desafiou-o para dar uma Conferência na ‘Voz do Operário’ sobre a democracia e, após alguma insistência acabou por aceitar, tendo realizado uma intervenção primorosa, apesar da falta de adesão do auditório ao seu discurso. A finais de 1957, António Sérgio empenhou-se em encontrar um candidato independente às eleições presidenciais agendadas para 1958. Sérgio convenceu Vieira de Almeida a colaborar na campanha do General Humberto Delgado e este, sem o conhecer manifestou-lhe a sua total confiança como mandatário nacional, já que o apreciava pela sua independência, vivacidade e percurso pouco comum. Sempre que o interrogavam por ser mandatário da campanha dizia: “É muito simples: concordei porque é preciso derrubar Salazar. Esse é o meu objetivo, independentemente de tudo o resto”. Após as eleições foi exonerado, perseguido e preso por duas vezes.
Desde a publicação dos 3 vols. pela Fundação Calouste Gulbenkian da ‘Obra Filosófica’, as homenagens da Romagem de Saudade em Castelo Branco, aquando do Centenário da sua morte em 1988, o ‘Colóquio do Centenário’ na Faculdade de Letras de Lisboa são alguns vestígios de certa vitalidade do seu pensamento que aqui deixo para relembrar e homenagear esta figura antifascista e opositor ao regime salazarista e lutador pela liberdade e democracia. Foi agraciado, a título póstumo (1987), pelo Presidente da República, Mário Soares com a condecoração Grande-Oficial da Ordem da Liberdade e, em setembro de 2017, o Presidente da República, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, concedeu-lhe o grau de Grande Oficial da Ordem de Instrução Pública. Vieira de Almeida alçou o pensamento português ao nível europeu, principalmente no campo da Filosofia e Lógica e merecia o reconhecimento dos albicastrenses nesta ilustre e digna homenagem.