14/10/2025
Sabíamos todos quem ia ganhar. Sabíamos, e mesmo assim houve quem tivesse a audácia de se candidatar. Quem soube de antemão o desfecho e, ainda assim, pagou o bilhete inteiro para o espetáculo da democracia. Por isso, antes de saudar os vencedores, permitam-me que me levante, devagar, sem palmas, mas com respeito, para cumprimentar os que perderam sabendo que iam perder. Não é coragem. É quase insanidade cívica, e talvez por isso mereçam mais do que um “boa sorte para a próxima”. Merecem o nosso aplauso pela teimosia, pela decência e por não terem deixado o poder correr sozinho. Os vencedores já sabemos quem são. Aliás, sabíamo-lo antes da campanha, antes dos cartazes, antes das promessas recicladas e dos sorrisos patrocinados. Ganhou o costume. O costume disfarçado de novidade, com discurso de mudança e currículo de continuidade. A festa foi grande, os abraços foram muitos, as fotos com filtro de humildade também. Tudo igual. Só o tapete muda de cor consoante o patrocínio.
Mas sejamos justos, a culpa não é só deles. Somos um povo be***al, no sentido zoológico do termo. Fregueses fiéis, munícipes compreensivos, especialistas em desculpar falhas humanas e humaníssimas. Acarinhamos as dependências, aplaudimos os excessos, toleramos os abusos e oferecemos chá aos vícios, sobretudo aos que se vestem bem e falam manso. Sabemos desculpar as infidelidades e justif**ar as traições, porque afinal “são pessoas como nós”. É a nossa religião laica, esta devoção pelas imperfeições alheias, desde que as nossas continuem discretas. E entre vício público e virtude privada, já ninguém distingue o altar da cave. Vivemos nesse conforto moral de quem prefere o conhecido ao competente e o simpático ao sério. Depois queixamo-nos da fotografia, como se não fôssemos nós a posar nela.
As eleições passaram, os discursos voltaram à normalidade e as bandeiras voltaram ao pó. Os lugares estão outra vez ocupados pelos de sempre e nós, do alto da nossa sabedoria cívica, preparamo-nos para os próximos quatro anos de compreensão e esquecimento seletivo.
Aos que perderam, o meu aplauso sincero. Aos que ganharam, a minha esperança contida. E a todos nós, fregueses exemplares, votos de boa continuação, que é o que o poder mais aprecia: a continuidade.
Pó do rodapé: a piscina municipal voltou a meter água. Já está encerrada. As fitas cor de laranja também já foram recolhidas. Tudo resolvido, portanto. Voltámos à normalidade. Bem hajam.
Cristina Gameiro