23/06/2026
Lançamento do Processo de Revisão do Código do Processo Penal
Realizou-se, no dia 22 de Junho de 2026, em Maputo, o lançamento do Processo de Revisão do Código do Processo Penal, numa iniciativa coordenada pelo Tribunal Supremo, em parceria com a Procuradoria –Geral da República, e com a Assistência Técnica do ICAR - Instituto de Governança do Basileia.
A Revisão do Código de Processo Penal tem por objectivos assegurar à justiça penal, coerência sistemática, harmonização com restante legislação e actualização de acordo com os mais elevados padrões internacionais; e incorporar as boas práticas internacionais e evolução tecnológica, designadamente investigação digital, inteligência artificial, meios de obtenção de prova; e responder às necessidades práticas da investigação criminal de defesa das vítimas e do sistema judicial.
A iniciativa representa, ainda, a visão estratégica e consentânea do Estado Moçambicano, de reforço das instituições e das garantias fundamentais e do fortalecimento do Estado de Direito Democrático.
O Presidente do Tribunal Supremo, Adelino Manuel Muchanga, no discurso de ocasião, sustentou que o direito processual penal vigente, aprovado pela Lei n.º 25/2019, de 26 de Dezembro, “requer revisão, não por falência da sua essência, mas porque a experiência prática, como sempre acontece com os grandes instrumentos legislativos, foi revelando insuficiências, lacunas e contradições que importa suprir”.
Elucidou, o Presidente do Tribunal Supremo, que no quotidiano dos tribunais e das procuradorias, avulta situações que exigem resposta, designadamente, “a conexão de processos entre crimes tributários e o branqueamento de capitais que tem gerado conflitos de competência de difícil resolução; os meios especiais de prova, o registo de voz e imagem, carecem de enquadramento legal adequado; as regras sobre recursos encerram contradições que prejudicam a segurança jurídica”.
Por seu turno, o Procurador-Geral da República, Américo Julião Letela, na intervenção, apontou constrangimentos e insuficiências que recomendam uma reflexão profunda e uma intervenção legislativa criteriosa, desde logo “a necessidade de maior simplificação procedimental, a redução dos factores geradores de morosidade processual, o reforço dos mecanismos de recuperação de activos provenientes da actividade criminosa, a adequação dos instrumentos processuais às novas formas de criminalidade organizada e transnacional, bem como o fortalecimento da coordenação interinstitucional e das garantias de protecção das vítimas e dos sujeitos processuais”, entre outros.
O Ministro da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, Mateus da Cecília Feniasse Saize apontou as transformações do fenómeno criminal e os desafios contemporâneos que se colocam à justiça e defendeu que a revisão deve ser capaz de assegurar os desafios actuais sem perder sem perder de vista os princípios fundamentais da legalidade, da dignidade humana, da presunção de inocência e do contraditório e das garantias do processo.
Por seu turno, a Alta-Comissária Britânica para Moçambique, Helen Lewis, na intervenção entende, entre outros, que a defesa dos direitos humanos no contexto de Estado de Direito Democrático, o ambiente de negócio, exigem uma justiça penal que assegure a previsibilidade das decisões, justiça penal célere, eficaz e eficiente.
Refira-se que para a elaboração da proposta de Revisão do Código de Processo Penal, de modo a assegurar a pluralidade científica, técnica e institucional e o alcance do consenso multissectorial, foi constituído o Grupo Técnico de Reforma do Código de Processo Penal, que integra 03 Magistrados Judiciais, com experiência em matéria criminal, designados pelo Presidente do Tribunal Supremo; 03 Magistrados do Ministério Público, com experiência criminal, designados pelo Procurador-Geral da República; 02 Advogados, com experiência em matéria criminal, indicados pelo Bastonário da Ordem dos Advogados de Moçambique; 01 Académico, especialista em processo penal, indicado pelo Director da Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane; 01 Representante do SERNIC, com experiência em investigação criminal; 01 Representante do Ministério da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, com experiência em matéria de legística.
Trata-se de Luís Mabote Júnior (Coordenador) e Dimas Marôa, Juízes Desembargadores e Efigénio Baptista, Juiz de Direito A; Lucas João e Victor Chau, Sub-Procuradores Gerais e Francisco Albano, Procurador da República Principal; António Salomão Chipanga e Manuel Cristiano, Docentes; Salvador Nkamate e Nelson Cossa, Advogados , Belmiro Guinda, Inspector do SERNIC e Manuela Lubrino, Técnica de legística.