17/01/2023
Algumas apreciações sobre o Livro Mulheres Negras Pobreza e Racismo.
O livro MULHERES NEGRAS, POBREZA E RACISMO de MARIA CRISTINA DE SOUZA é uma excelente contribuição a um tema que pode parecer óbvio, mas nem sempre é tratado com a seriedade que merece. Dizer que mulheres negras e pobres no Brasil vivem as piores condições de exploração e opressão é quase lugar comum hoje nas redes sociais, meios de comunicação de massa e pesquisas acadêmicas. Entretanto, essa “obviedade” segue sendo ocultada por muitos outros condutos, o que explica, inclusive, as dificuldades de autopercepção das pessoas que vivem essa condição. Esse motivo por si só tornaria relevante essa publicação.
Mas além disso, chamo atenção para o fato dessa obra enfrentar com serenidade um terreno conceitual “espinhoso” que está no cerne das preocupações empíricas da autora: a chamada “interseccionalidade” entre gênero, raça e classe, que que subjaz a situação das mulheres negras e pobres usuárias de programas de transferência de renda. E a autora o faz sem abrir mão de contextualizar no capitalismo o cerne das formas como essas desigualdades sociais e raciais são vividas, especialmente no Brasil.
Mesmo que eu, como leitora, não esteja ainda convencida da utilidade conceitual da “interseccionalidade” não pude deixar de notar o cuidado da abordagem da Cristina com o fundamento materialista de suas reflexões, algo lamentavelmente bastante ausente de muito do que se escreve sobre racismo nos dias que correm. Suponho que além do cuidado e rigor teóricos, também o tema de sua reflexão (mulheres em situação de pobreza) não a deixaria vedar as determinações materiais dessa opressão, invisibilizada socialmente pelas nuances diversas da alienação que aparece nas entrevistas das “mulheres Carolinas”. Adorei esse modo utilizado pela autora para referir-se às entrevistas realizadas com as mulheres negras, cujos trechos são criticamente transcritos e refletidos com o mesmo cuidado conceitual que transparece em sua abordagem dos termos teóricos de sua análise. O livro nos impulsiona a movimentar o comprometimento que devemos ter para colocar esse “problema” no seu devido lugar cobrando seu enfrentamento pelas políticas públicas nesse “novo” momento da sociedade brasileira onde o obscurantismo e o negacionismo sofreram uma importante derrota. Façamos isso. É urgente!
Profª Drª JOSIANE SOARES SANTOS – Professora Titular do curso de Serviço Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Mulher negra e ex-presidente do Conselho Federal de Serviço Social na gestão 2017-2020, na qual coordenou a campanha “assistentes sociais no combate ao racismo”.
Mulheres Negras, Pobreza e Racismo
Resenha por Tais Pereira de Freitas
"Mulheres negras, pobreza e racismo" é o livro da Professora Doutora Maria Cristina de Souza, lançado agora em Novembro de 2022 pela editora Letramento.
No livro, a autora traz um de bate cuja centralidade é a interseccionalidade entre gênero, raça e classe. Mas dizendo isso pode parecer que no livro ela vai ficar discutindo explicitamente o conceito de interseccionalidade. NÃO!!! E aqui tá, na minha opinião, o diferencial do texto da Profa Maria Cristina. Ela fala de interseccionalidade sem falar que está falando de interseccionalidade. No livro dela, esse conceito vai se demonstrando, vai se desenhando enquanto ela explica pra gente as articulações entre pobreza, racismo e relações de gênero.
Eu destaco também que no livro, ela consegue ainda trazer cores pro debate de classe, apontando o fenômeno da pobreza.
É um livro organizado em quatro capítulos. No primeiro, ela explana a articulação entre pobreza, gênero e raça, explicitando razões históricas e realidades contemporâneas, num debate interseccional.
O segundo capitulo, meu predileto, é quando ela vai trazer a forma como mulheres negras pobres, usuárias de programas sociais concebem essa articulação entre pobreza, gênero e racismo. Para a pesquisa que resultou no livro, a autora entrevistou mulheres nessa condição e o que ela traz é extremamente desafiador, na medida em que fruto de um processo histórico, essas mulheres percebem a pobreza apenas na negação das condições de sobrevivência biológica.
No terceiro capítulo, a autora avança na análise da desigualdade racial dentro do contexto neoliberal que aprofunda desigualdades sociais enquanto fortalece o discurso do mérito. Merece destaque o trecho que está na página 77 : "Dessa maneira, os neoliberais asseguram uma forma de organização social que, embora patrocine a completa desvantagem desses segmentos, propicia ganhos e lucratividades a outros que seguem economicamente dominantes na sociedade. A discussão do mérito sobrepõe a discussão das consequências das desigualdades raciais, suas desvantagens relacionadas aos negros. "
O quarto e o último capitulo traz uma análise interessante a partir do viés das políticas públicas, apontando o caráter insuficiente das mesmas, especialmente no que diz respeito as mulheres negras.
Em síntese, um livro fundamental pra entender a articulação entre gênero, raça e classe na realidade brasileira e o papel das políticas sociais.
Tais Pereira de Freitas. Assistente Social, Professora no curso de Serviço Social da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Pesquisadora da temática gênero e raça. Mulher negra.
Maria Cristina de Souza É assistente social docente no Departamento do curso de Serviço Social na Uni