10/05/2026
Há cidades que não envelhecem.
Elas apenas vão perdendo os seus sons.
E olhando essas duas imagens de Taperoá, o que dói não é apenas a mudança da paisagem. É o silêncio.
Na primeira foto antiga, ainda existia pulsação. O antigo Colégio Estadual mantinha aquela parte da Matriz viva. Tinha estudante atravessando a praça, conversa nas calçadas, bicicleta encostada, vendedor chamando, risada ecoando entre as paredes antigas. O espaço era apertado porque a vida ocupava tudo.
Hoje, olhando a imagem atual, parece que arrancaram a alma do lugar e deixaram apenas concreto organizado.
Abriram vazio onde antes existia encontro.
E talvez esse seja um dos maiores erros das cidades modernas: acharem que urbanizar é apenas “limpar”, “padronizar”, “abrir espaço”. Não é.
Cidade sem gente circulando vira cenário.
E cenário não abraça ninguém.
As barracas construídas ali parecem não conversar com a história da rua. Quebram a identidade visual, ferem a memória arquitetônica e criam uma sensação estranha de desconexão. Quem conhece Taperoá de verdade percebe isso na mesma hora.
E lá do alto ainda enxergamos outra ferida: o que fizeram com a Casa Paroquial.
Quem viveu aquele tempo lembra dos jardins, das roseiras, do charme antigo, da imponência silenciosa daquele espaço. Havia uma harmonia entre a Igreja, a praça e a Casa Paroquial. Tudo parecia conversar entre si.
Hoje, muito disso foi descaracterizado.
E o mais revoltante é perceber que, em nome do “novo”, muitas cidades estão apagando justamente aquilo que as tornava únicas.
Taperoá nunca precisou parecer cidade grande.
Sua beleza sempre esteve exatamente no contrário.
Nas fachadas antigas.
Nas esquinas apertadas.
Na sombra das árvores.
No povo ocupando a rua.
Na memória viva.
Porque uma cidade não é feita apenas de obra.
É feita de pertencimento.
E pertencimento não se constrói com cimento. Se constrói com memória, identidade e respeito pela própria história.