26/01/2026
Reconheceríamos hoje os sinais do Holocausto?
Célia Parnes PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO ISRAELITA DO ESTADO DE SÃO PAULO, FOI SECRETÁRIA DE DESENVOLVIMENTO SOCIAL DO ESTADO DE SÃO PAULO
O Estado de S. Paulo.
26 de jan. de 2026
Se o Holocausto estivesse começando hoje, saberíamos reconhecer os sinais? Ou estaríamos, como tantas vezes na História, presos a debates sobre rótulos, intenções e enquadramentos, enquanto a desumanização se reorganiza diante dos nossos olhos?
O Holocausto não aconteceu por falta de alertas. Tampouco por ingenuidade coletiva. Ele ocorreu porque sociedades inteiras se anestesiaram. Habituaram-se ao discurso intolerante, às exceções morais, à violência justificada por causas supostamente nobres. Ficaram confortáveis com a ideia de que determinados grupos poderiam ser excluídos do círculo de empatia sem que isso representasse uma ameaça ao todo.
O extermínio de mais de 6 milhões de judeus não foi um acidente da História. Foi o resultado de um processo gradual de erosão civilizatória, no qual a indiferença foi tão decisiva quanto a violência explícita. A pergunta que se impõe hoje não é apenas histórica, mas profundamente contemporânea: aprendemos a reconhecer esse processo quando ele se apresenta sob novas formas?
Nos últimos anos, a desumanização voltou a ganhar espaço no debate público global. Ela se manifesta nas universidades, nas redes sociais, nas ruas e nos discursos políticos. Não surge mais, necessariamente, com símbolos facilmente identificáveis, mas com linguagens sofisticadas, vocábulos técnicos e narrativas que conferem aparência de legitimidade ao ódio e à exclusão. Algoritmos premiam o extremismo e a pressão do “consenso” silencia dissonâncias.
Nesse contexto, a proteção dos judeus, historicamente um dos primeiros alvos desse tipo de processo, não é uma pauta identitária ou comunitária. É um indicador sensível da saúde moral das democracias. A História demonstra que a perseguição nunca se limita a um único grupo. Ela testa limites, mede reações e, quando encontra silêncio ou relativização, avança.
No Brasil, sinais que deveriam acionar alertas vêm se acumulando. Pichações antissemitas, profanação de cemitérios, tentativas de exclusão de judeus de espaços acadêmicos e culturais e disseminação de narrativas falsas que utilizam o antissionismo como linguagem socialmente aceitável para o antissemitismo. A mentira, hoje, não precisa mais ser institucionalizada: basta ser amplificada. Graças à convergência entre a tecnologia e a radicalização, nunca foi tão fácil desumanizar em escala nacional.
Mais preocupante do que esses episódios é a reação a eles. Notas vagas, posicionamentos genéricos ou mesmo o silêncio de autoridades diante de manifestações antissemitas explícitas revelam uma dificuldade crescente de nomear o problema e enfrentá-lo com a seriedade que ele exige. Quando o Estado hesita em reconhecer o antissemitismo, ele contribui para sua normalização.
Nesse mesmo sentido, a decisão do Brasil de se retirar da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA) não é um gesto meramente diplomático. Trata-se de um sinal político e simbólico relevante. Ao se afastar de um fórum internacional dedicado à preservação da memória do Holocausto e ao combate ao antissemitismo, o País fragiliza seus próprios compromissos com padrões internacionais de vigilância, educação e prevenção. Em tempos de recrudescimento do ódio, esse tipo de afastamento não é neutro.
O silêncio ou o posicionamento diplomático sempre revela uma escolha política: relativizar os fatos quando não convém ao discurso, pode corroer nossa credibilidade moral internacional.
O cenário internacional reforça a gravidade do momento. Regimes autoritários que negam liberdades fundamentais, executam opositores e manipulam a História como instrumento político não representam apenas tragédias locais. Representam laboratórios de barbárie. A negação histórica, em especial do Holocausto, nunca é um exercício acadêmico: é sempre um ensaio para o futuro.
Além disso, o mundo assiste, neste exato momento, a massacres populacionais, limpezas étnicas, perseguições religiosas e deslocamentos forçados em diferentes regiões. Civis encurralados em conflitos prolongados, minorias sistematicamente eliminadas, populações inteiras reduzidas à invisibilidade. A geografia muda, mas o padrão se repete: desumanização, silêncio internacional e indignação tardia.
A principal lição do Holocausto talvez seja esta: a barbárie começa muito antes da violência física em larga escala e continua muito depois que ela termina. Começa quando a dignidade humana se torna negociável. Quando o discurso de ódio é relativizado. Quando a neutralidade moral é confundida com prudência.
Lembrar o Holocausto, portanto, não é um gesto voltado apenas ao passado, nem restrito a um grupo específico. É um exercício cívico universal. Um compromisso ativo com os direitos humanos, com a vigilância democrática e com a recusa permanente à normalização do inaceitável.
Essa responsabilidade não se esgota em cerimônias, discursos ou artigos: ela se impõe no cotidiano, nas escolhas políticas, no discurso público e na disposição de agir antes que a barbárie volte a se apresentar como opção possível.