28/02/2015
CORTICOSTEROIDES E REDUÇÃO DE FALHA TERAPÊUTICA EM PNEUMONIA COMUNITÁRIA GRAVE
Uso de corticosteroides em pacientes com pneumonia comunitária grave e resposta inflamatória exacerbada pode reduzir o risco de falha terapêutica em aproximadamente 70%, segundo resultados de estudo randomizado publicados no periódico JAMA (TORRES et al., 2015).
A pneumonia é uma condição altamente debilitante, associada à alta morbimortalidade intra-hospitalar, especialmente em populações vulneráveis. Em pacientes com pneumonia comunitária grave (PCG), falência de tratamento está associada à resposta inflamatória excessiva e piores desfechos clínicos. Os corticosteroides (CI) são medicamentos conhecidos por sua ação anti-inflamatória, e podem modular a liberação de citocinas em pacientes com PCG. Contudo, os benefícios dessa terapia adjuvante permanecem controversos.
A fim de avaliar o efeito de corticosteróides em pacientes com PCG e resposta inflamatória associada alta, estudo multicêntrico randomizado conduzido por pesquisadores espanhóis, foi publicado esse mês (fevereiro/2015).
Para tal, pacientes provenientes de três hospitais universitários, com PCG e proteína C-reativa superior a 150 mg/L no momento da admissão, foram randomizados para receber um bolus intravenoso de 0,5 mg/kg por 12 horas de metilprednisolona (n = 61) ou placebo (n = 59), durante 5 dias, iniciados dentro de 36 horas de internamento. Os pacientes foram recrutados e acompanhados de junho de 2004 a fevereiro de 2012.
O desfecho primário foi falha terapêutica (desfecho composto de falha ou fracasso precoce definido como [1] deterioração clínica indicada pelo desenvolvimento de choque, [2] necessidade de ventilação mecânica invasiva, ou [3] morte dentro de 72 horas de tratamento; ou desfecho composto de falha do tratamento tardia definida como [1] progressão radiográfica, [2] persistência de insuficiência respiratória grave, [3] o desenvolvimento de choque, [4] necessidade de ventilação mecânica invasiva, ou [5] morte entre 72-120 h após o início do tratamento, ou ambas as falhas precoce e tardia). A mortalidade hospitalar foi um resultado secundário e eventos adversos foram avaliados.
Principais Resultados
Houve menos falhas terapêuticas entre os pacientes do grupo de metilprednisolona (8 pacientes [13%]), em comparação com o grupo placebo (18 pacientes [31%]) (P = 0,02), com uma diferença entre os grupos de 18% (95% IC, 3-32%). O tratamento com corticosteroides reduziu o risco de falha do tratamento (odds ratio 0,34, [IC 95%, 0,14-0,87]; P = 0,02).
A mortalidade hospitalar não diferiu entre os dois grupos (6 pacientes [10%] no grupo de metilprednisolona vs 9 pacientes [15%] no grupo placebo, p = 0,37); a diferença entre os grupos foi de 5% (IC 95%, 6%-17%). Hiperglicemia ocorreu em 11 pacientes (18%) no grupo de metilprednisolona e em 7 pacientes (12%) no grupo de placebo (P = 0,34).
Conclusões
Entre os pacientes com pneumonia comunitária grave e resposta inflamatória inicial elevada, o uso agudo de metilprednisolona em comparação com placebo reduziu significativamente falha terapêutica.
Comentário
O uso de corticosteroides em condições graves com resposta inflamatória exacerbada é consagrado é algumas situações, tais como no choque séptico. Considerando os mesmos fundamentos, o presente estudo indicou que a terapia adjuvante com CI em paciente com pneumonia e resposta inflamatória elevada, foi associada a taxas de falha terapêutica quase 70% menores. Por seu número amostral limitado, a replicação do estudo, em condições metodológicas semelhantes, pode ser interessante para confirmação dos resultados e posterior mudanças na prática clínica.
Referências
TORRES, A. et al. Effect of Corticosteroids on Treatment Failure Among Hospitalized Patients With Severe Community-Acquired Pneumonia and High Inflammatory Response. JAMA, v. 313, n. 7, p. 677, 17 fev. 2015.