30/01/2023
Quando se fala em "Rota dos Tropeiros" logo se remete àquela rota de Viamão à Sorocaba.
Entretanto, a história de Itapeva possui forte ligação com o passado das rotas tropeiras que transitavam pelo Caminho de Viamão vc à Sorocaba.
Itapeva, ou Vila de Fachina como era conhecida à época, era um dos vários entrepostos de acampamentos das comitivas de comerciantes que compravam tropas de animais para revendê-las em grandes feiras de muares ocorridas em Sorocabas e outros centros.
Os ditos "tropeiros de besta” utilizavam os animais para, além de vendê-los, transportarem outros gêneros para o comércio nas várias vilas e cidades pelas quais passavam nessas rotas que cortavam o sudeste e sul do Brasil a partir do século XVIII.
No sentido mais estrito da palavra o termo "tropeiro" é o peão cuja função, na pecuária extensiva brasileira (inclusive nas comitivas), consiste em reunir pela manhã, cuidar durante o dia e alojar à noite a tropa de cavalos de serviço que os peões campeiros trocam durante a jornada de trabalho.
Além de seu importante papel na economia daquela época, o tropeiro teve importância cultural relevante por ser veiculador de ideias e notícias entre as aldeias e comunidades distantes entre si, numa época em que não existiam estradas no Brasil.
Um dos marcos iniciais do tropeirismo foi quando a Coroa Portuguesa instalou, em 1695, na Vila de Taubaté, a Casa de Fundição de Taubaté, também chamada de Oficina Real dos Quintos.
A partir de então, todo o ouro extraído das Minas Gerais deveria ser levado a esta Vila e, de lá, seguia para o porto de Parati, de onde era encaminhado para o reino via cidade do Rio de Janeiro.
Ao longo das rotas pelas quais se deslocavam, ajudaram a fazer brotar várias das atuais cidades do Brasil. As cidades de Taubaté, Sorocaba, Santana de Parnaíba e São Vicente, Itapetininga e Itapeva em São Paulo, além de Viamão e Cruz Alta no Rio Grande do Sul e Castro no Paraná são algumas das pioneiras que se destacaram pela atividade de seus tropeiros.
Mas você sabia que as antigas estradas abertas pelos nossos antepassados eram muito mais esparsas e com diversos ramais?
A conhecida “Estrada de Viamão” também chamada de Caminho ou Estrada Real de Viamão, Caminho das Tropas, Caminho de São Paulo é a rota mais famosa dos tropeiros, pois era através dela que se passava grande parte dos animais xucros que seriam comercializados nas feiras de Sorocaba, e de lá seriam distribuídas por diversas regiões do Brasil.
Foi justamente nesse período de grande intensidade de comércio de muares que outros caminhos surgiram, ou se tornaram caminhos de tropeiro; tropas xucras, tropas arriadas, dentre outras.
Alguns deles, como a Estrada Real que ligava Paraty e o Rio de Janeiro até o centro das minas, tornou-se intenso caminho de tropeiros com diversos tipos de mercadorias e também no escoamento de minérios.
O caminho de Anhanguera aberto em meados de 1722, quando o bandeirante Bartolomeu Bueno (Anhanguera II), descobriu ouro na região de Goiás, inaugurando assim uma intensa rota de tropeiros que passavam pela região, tanto no suprimento de animais de montaria quanto no suprimento de alimentos e outros misteres.
Novos caminhos e novos ramais (atalhos) surgiriam depois. Alguns para encurtar o caminho, como o Caminho da Vacaria, que interligava Cruz Alta a Vacaria, no Caminho do Viamão, passando por Passo Fundo e Lagoa Vermelha.
Outros caminhos alternativos e não reconhecidos oficialmente por cartógrafo, são os que cortavam o sertão paulista através do médio Tietê, antes mesmo de chegar em Sorocaba, passando por Botucatu, Piracicaba e adentrando em regiões inóspitas e perigosos, para se chegar até as Minas Gerais, sem precisar pagar impostos.
Pouco se fala de onde vinham os muares, alguns entendem que seja Viamão, como centro criador destes animais. Mas na realidade estes animais vinham da região do estuário da prata, na atual Argentina e no atual oeste do Uruguai. Era lá que os primeiros paulistas como o bandeirante Francisco de Brito Peixoto em meados de 1715-1725 obteve as primeiras remessas de animais de montaria e gado com a finalidade de introduzir no Brasil através de Laguna.
Foi pioneiro juntamente com o seu genro João Magalhães (fundador de Rio Grande) na abertura do "Caminho da Praia" entre Colônia do Sacramento, quando era de posse portuguesa, até Laguna em Santa Catarina, na época pertencente à Capitânia de São Paulo.
Com as notícias dos milhões de animais de montaria que valiam ouro nas bandas dos pampas, inúmeros sertanistas e bandeirantes participaram dos primeiros caminhos de tropas em diversos períodos. Como Francisco de Souza e Faria e Cristóvão Pereira de Abreu.
Muitos dos caminhos hoje se tornaram ruas, estradas e rodovias. Mas a cultura, os hábitos, linguajar, culinária, religiosidade, genealogia, as tradições e os costumes destes homens permaneceram nestes caminhos que interligavam o Brasil de diversas formas, não só unificando o Brasil culturalmente e territorialmente, mas ajudando a influenciar e formar novas culturas. Foram nessas andanças que a cultura caipira destes tropeiros, antes bandeirantes, se estabeleceu definitivamente nos confins dos sertões.
Nas idas e vindas destes homens, surgiria e influenciaria e muito o surgimento do gaúcho das bandas orientais e brasileiras, criando-se então um tipo campeiro brasileiro, mas muitíssimo ligado à forma de vida dos platinos. Formados por paulistas, africanos indígenas locais, açorianos, os castelhanos- o futuro homem gaúcho brasileiro - em uma enorme rede de preação, abate de gado, salga e de criação de mulas para o comércio com estes tropeiros.
Toda essa história faz parte do acervo cultural, geográfico, genealógico e histórico de Itapeva, o qual o Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Itapeva tem como missão preservar para as presentes e futuras gerações.
***Pesquisa: Leonardo Ferreira, Fernando Oliveira e Gabriel Maciel.