23/10/2021
“Faz parte dos discursos conservadores ignorar e desautorizar demandas das minorias que lutam por mais direitos; direitos inalienáveis à sua condição de cidadãos. Dentre as estratégias políticas de governos populistas, como os que temos visto na nossa contemporaneidade, está o escárnio diante dos dados que mostram como vivemos em condições que dividiram e ainda dividem os
brasileiros. A escravidão, na escala em que a conhecemos aqui, foi e continua sendo uma especificidade incontornável da história brasileira. Herdamos um contencioso pesado e estamos tendendo a perpetuá-lo no momento presente; as pesquisas mostram a discriminação estrutural vigente no país, a qual abarca, como veremos mais à frente, as áreas da educação, da saúde, chegando aos registros de moradia, transporte, nascimento e morte. Por outro lado, as várias tentativas de menosprezar o problema, de desfazer
dos relatos e pesquisas - chamando-os de "mimimi", numa alusão pejorativa à comunicação informal de uma pessoa que só reclama -, não dão conta de explicar a inexistência do racismo no Brasil, apenas confirmam a sua efetiva prática cotidiana, que se esconde no movimento de denegação.
Projetos autoritários têm a capacidade de recriar o passado e obscurecer o papel das populações que viveram e criaram outras histórias; não apenas aquela europeia e colonial. Muitas temporalidades conviveram simultaneamente. Toni Morrison, no romance Amada, conta a história da Casa 124, que era habitada por duas mulheres e seus fantasmas do passado: a memória da violência, dos estupros, dos filhos perdidos e das tantas mortes dos dias de
escravidão. Paradoxalmente, os fantasmas que insistiam em retornar eram os que mais se pareciam com os elementos da vida cotidiana. Na verdade, vivos e mortos compartilhavam o mesmo plano de existência. Nós, brasileiros, andamos atualmente perseguidos pelo nosso passado e ainda nos dedicando à tarefa de expulsar fantasmas que, teimosos, continuam a assombrar.”
Lilia Moritz Schwarcz em SOBRE O AUTORITARISMO BRASILEIRO (Companhia das Letras, 2019).